
Era uma manhã de nevoeiro, insípida como outra qualquer. Sem destino ou direcção, ela vagueava em busca de alguma coisa que lhe devolvera aquele estado de encantamento que retomava em si o sonho de que já só recordava um momento muito específico: do alto de um monte desconhecido contemplava uma praia de rocha vulcânica incessantemente abalroada por um mar bravo, como um touro enraivecido, cavalgando contra o vento. Não conseguira perceber que lugar era aquele mas algo lhe dizia que ele existia mesmo, e estava decidida a encontrá-lo.
Nunca saíra dali, do alto daquela montanha onde quase ninguém se atrevia a tentar chegar. Era um caminho estreito por uma encosta escarpada, uma senda que poucos conheciam e ainda menos tinham vontade de percorrer.
O seu pai, agora um ancião, sempre a ensinara a não seguir por caminhos desconhecidos. Desde pequena que sabia o que fazer: “Se algum dia deres com um trilho que não conheças, pára, chama por mim e espera, mais cedo ou mais tarde eu hei-de encontrar-te.” Só lhe acontecera uma vez, quando, ainda criança, apanhava flores com a irmã e se perdera dela ao perseguir uma borboleta. Lembrava-se perfeitamente, até da roupa que vestia naquele dia: usava um quimono branco com rosas azuis que a mãe bordara à mão…
Que saudades tinha dela… Que falta lhe fizera durante todos aqueles anos…
Às vezes ainda sonhava com a mãe. Via-a sempre da mesma forma: com uma veste branca que não conseguia identificar, os cabelos soltos, como raramente lhos vira em vida, e um sorriso que lhe iluminava o rosto. Nunca dizia uma palavra, só a olhava com a mesma ternura com que sempre o fizera, enchendo-lhe o coração de uma paz incomparável.
Desde que ela partira que o pai dedicara todos os seus esforços a educar as duas filhas de acordo com os preceitos da família, e mais ainda a mantê-las bem perto de si, onde as conseguisse avistar, onde as pudesse proteger.
Viviam bem. Cultivavam a terra com a dedicação necessária e ela dava-lhes o essencial. O pai, mestre de Wushu, era procurado por um a dois discípulos por ano. Muitos mais gostariam de aprender com a sua sabedoria mas ele preferia acompanhá-los de forma individualizada e respeitar o seu ritmo. Em troca ajudavam nas colheitas, e o pai fazia questão de frisar que esse era um dos elementos essenciais da sua aprendizagem.
Apesar de satisfeita com a vida pacata que levava com o pai no alto da montanha, Wan Wei sempre gostara de imaginar o que estaria para lá da linha do horizonte. Nunca vira o mar. A imagem que dele tinha baseava-se na descrição que lhe faziam os mercadores que, de longe a longe, por ali passavam. Aos discípulos era imposta uma disciplina tão rigorosa que raramente chegava a conversar com algum deles. Era assim desde que a irmã desaparecera com um, sem deixar rasto ou explicação.
Sempre cumprira a vontade do pai, no entanto, naquela manhã de nevoeiro, ainda que sentindo que ele o desaprovaria, foi avassalada por um impulso mais forte que a sua consciência. Na verdade, e para sua surpresa, não sentia estar a fazer nada de que se devesse arrepender. Sem olhar para trás, seguiu, sem saber para onde, com passos errantes mas firmes, por um caminho desconhecido. Sem saber bem como ou porquê, sentiu-se dominada por um sentimento que somente experimentara em sonhos, algo de parecido com a sensação que a percorrera quando, ainda criança, se perdera em busca de uma borboleta.
Era como se uma luz lhe abrasasse o coração. Soltara-se das amarras que, sem nunca se ter apercebido, até então a tinham aprisionado. Sentia-se planar sobre o chão…
Era, final e indubitavelmente, livre.