terça-feira, 5 de maio de 2015

Há um mar que nos separa...

Sudaneses, eritreus, bengaleses...
Morrem aos milhares num mar que os conquista com promessas de liberdade, de prosperidade, de paz... Quais sereias traiçoeiras, os ecos de uma Europa “civilizada”, “desenvolvida”, “solidária”, atraem-nos como luz ao fundo de um túnel escuro de gritos de morte, de catástrofes naturais, de perseguições, de guerra...
A esperança está do outro lado de uma travessia que não se reveste de medo porque um destino pior do que a realidade que deixam para trás é-lhes difícil de imaginar. Trazem na pele as marcas de uma existência sofrida e na mente um único objectivo: uma vida, que acreditam, sem dúvidas, será melhor do que aquela que conhecem.
Tantos não chegam sequer a vislumbrar o paraíso imaginado, ficando pelo caminho entre as ondas de um mar revolto e as vagas de uma indiferença atroz. Aqueles que conseguem aportar na terra prometida depressa percebem que as maravilhas anunciadas não correspondem aos sonhos que alimentaram. Ainda assim, sentem-se gratos, e agarram-se com unhas e dentes à oportunidade de respirar um pouco do sopro de “perfeição” que alguém lhes vendeu por um preço demasiado alto. Chegam em barcos apinhados, acotovelando-se por uma lufada de ar fresco, contando as gotas de água que ainda lhes sobram até ao fim da travessia.
Entretanto, do lado de cá, o mundo acotovela-se para fazer ouvir a sua opinião. Os meios de comunicação lutam por “primeiras mãos”, exploram boatos até dizer mais não, digladiam-se e pagam milhões por exclusivos, criam notícias quando elas não existem. Pior, chegámos a um ponto em que para se ter uma opinião, ou se dizer “livre de expressar tudo o que eu quiser”, é preciso não só criticar mas antes ofender o outro, insultando as suas crenças mais profundas, lesando a sua dignidade e afrontando a sua liberdade.
Será descabido dizer que há uma ligação directa entre o crescendo da defesa da “nossa liberdade” e o reforço da revolta que alimenta os extremismos? Será desapropriado notar que as travessias com finais infelizes – de mares que nem sempre são compostos de água – não são novidade e que bem recentemente as tragédias se davam sem que nenhuma autoridade, podendo actuar, fizesse o mínimo esforço para contrariar os resultados, por demasiadas vezes limitando-se estas a observar os acontecimentos em silêncio? Será inoportuno falar das razões que levam estes seres tão humanos quanto nós a sentir que a única solução é deixar tudo para trás e tentar o que de mais incerto há? Ou será demasiado escabroso pensar que nós, e a nossa mania de sermos livres sem pensar que a nossa liberdade pode estar a pôr em causa a liberdade do outro, é que somos os verdadeiros culpados das desgraças que trazem esta gente a uma desgraça ainda maior?
Após as tragédias recentes, o primeiro-ministro italiano proferiu um dos poucos discursos oficiais acertados a propósito daquilo que é preciso fazer para impedir que a cada dia os refugiados sejam motivo de notícia pelas piores razões: trabalho conjunto sobre as causas do flagelo, não sobre as consequências. É necessário agir numa perspectiva de cooperação com os países de origem, enfrentar os problemas, não lidar com os resultados finais. E aí a dita “comunidade internacional” tem obrigação e poder para usar a tão aclamada “liberdade de expressão” para muito mais do que divulgação de cartoons de mau gosto... Quanta ingerência internacional em assuntos que não dizem respeito a ninguém e quanta inércia quando se trata de realmente proteger inocentes em perigo de reais ameaças...
A capa do mitificado Charlie a propósito do assunto mediterrânico é o coroar de uma demasiadamente longa lista de despropósitos que vêm alimentando o rancor daqueles que o mundo imagina como sendo maravilhosamente acolhidos por um continente que, sendo maravilhoso, tem muito a aprender quanto ao respeito pela diferença. Imagina, simplesmente, que uma foto da tua família era adulterada e divulgada nos meios de comunicação social em poses pornográficas. Qual seria a tua reacção? Qual seria a tua reacção se um jornal o fizesse sem cessar ao longo de... anos?
Há dias uma norte-americana defensora da “liberdade de expressão” alardeava na televisão que os cristãos não matam ninguém quando o mesmo tipo de cartoon que tanto ofende os muçulmanos se refere a Jesus Cristo. Sendo cristã, crente e praticante de todas as formas que me são possíveis (como se fosse possível crer e não praticar), tenho a lembrar três coisas: cruzadas, inquisição e “não praticantes” (o que quer que “praticar” signifique para quem se diz não praticante...) Outro apontamento, não há não praticantes entre os muçulmanos e quem “pratica” encara a religião e a fé como um modelo de vida, da mesma forma que tradicionalmente a Europa encarava a família, ainda que nem a família sirva mais de modelo a coisa nenhuma... querendo crer que a generalidade da população "ocidental" ainda se guia por alguma outra coisa que não seja o lucro...
Nada justifica um atentado a uma vida humana, nada! Mas a nossa responsabilidade também não pode ser negligenciada, e a defesa da nossa “prosperidade” e da nossa “liberdade” tem sido causa primeira de tanto ataque à dignidade e à vida de tantos. Tantos que depois nos procuram com a alma cheia de sonhos e se vêm escorraçados e enterrados em negros pesadelos. Valerá a pena pôr em causa milhares de inocentes em nome... de quê? De desenhos sórdidos e ofensivos?
Quanto mais atacamos, sem sensibilidade nem bom senso, os valores daqueles que os defendem sem sensatez (e de tantos outros que não têm absolutamente nada que ver com o assunto), mais o fanatismo se adensa. Quanto mais o fanatismo se adensa, mais o extremismo faz vítimas e quanto mais numerosas as vítimas, mais pessoas ameaçadas procuram refúgio neste lado do mundo, iludidas por imagens de uma liberdade que nem mesmo aqueles que sobrevivem ao mar um dia terão (porque na verdade nem mesmo todos os que aqui nasceram a ela têm direito da mesma forma...). E quanto mais criaturas em situação fragilizada – sem direitos nem protecção de nenhuma espécie – aportarem a estas margens, mais material para dar corpo a reacções extremistas se não soubermos dar-lhes motivos para não o serem, se não soubermos tratá-los como iguais e respeitá-los enquanto diferentes.
O caminho não é fácil mas é simples, basta reconhecer que aquilo que procuramos para nós próprios é o mesmo que todos quantos têm este mundo como casa têm o desejo de conhecer, e ninguém o merece mais que qualquer outro, porque, na verdade, nada do que existe nos pertence, todos estamos de passagem, numa viagem em que as tempestades são uma constante. A diferença é que enquanto uns viajam em navios de luxo, outros se vêem obrigados a confiar em botes salva-vidas... Cada um de nós tem o poder e o dever de fazer a travessia pelo menos o menos difícil possível para aqueles para quem o peso das vagas é maior. Talvez não possamos mudar o mundo, mas a diferença que podemos fazer pode ser decisiva para a possibilidade de fazer alguma diferença de outros...
E o mar que nos separa é também um mar que nos pode unir...


“O que eu faço, é uma gota no oceano. Mas sem ela, o oceano será menor.”
(Madre Teresa de Calcutá)