Porque o mundo é uma enorme manta de retalhos feita das histórias de cada um de nós. Porque cada ser tem um porquê e cada olhar esconde muitos porquês. E porque é de histórias que somos feitos, de recordações que somos moldados, por sonhos que nos guiamos, esta é uma pequena janela sobre os pensamentos sugeridos, os sonhos criados, as respostas encontradas, num conjunto de imagens que falam por si...
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Indira
Esperou que ele chegasse, mas ele não voltou…
Há anos que era assim. Todos os dias ao final do dia ela caminhava sob o sol flamejante de Haridwar, dirigindo-se ao único lugar que a fazia sentir-se próxima da sua esperança mais bem guardada. Havia anos que aquele era o seu rito diário, levando-a sempre de volta ao local onde o vira pela última vez.
Fizera uma promessa a si mesma: nunca deixaria de o procurar e, acontecesse o que acontecesse, sabia que havia de encontrá-lo, fosse onde fosse, quando tivesse que ser…
Na cidade já todos a conheciam como louca. Dos brâmanes às crianças da lixeira - as mesmas que durante tanto tempo alimentara às escondidas - já ninguém tentava sequer dissuadi-la da sua demanda. Chamavam-na unmaadi, a insana, e já ninguém – senão os turistas que por ali passavam – estranhava a sua atitude. Mas eles não sabiam de nada… Eles estavam só de passagem, era ela quem vivia todos os dias com aquela dor que lhe apertava o coração com toda a força a cada nova respiração. Já não tinha noção dos dias ou das horas, a sua única referência era o sol, que a guiava sempre até ao mesmo lugar.
Era um dia de calor abafado, como a maioria dos dias de Verão em Haridwar. Mas o ar daquele dia tinha um peso diferente. Aproximava-se o pôr-do-sol e o normal era que os mosquitos começassem a incomodar, com o zumbido característico que levava os estrangeiros a evitar os passeios àquela hora do dia. A ela já há muito que não fazia diferença. Esses detalhes haviam deixado de incomodar Indira havia muito tempo, mas não podia deixar de notar que aquele dia era diferente, e cada sinal da Terra era mais um reluzir de esperança no seu caminhar adormecido.
Como todos os dias, levava o seu melhor sari, e um véu que lhe cobria a cabeça, sempre levantada, os olhos perscrutando cada pormenor das ruas sempre atribuladas da sua cidade.
Havia 10 anos, tal como naquele dia, uma brisa suave fazia sentir-se por entre a confusão.
Indira lembrava-se de cada passo daquela jornada que a levara até às margens do Ganges. Era ali que devia ter encontrado o seu filho, era ali que esperava encontrá-lo a cada novo dia de renovada angústia… Havia quem afirmasse tê-lo visto afogar-se nas águas do rio. Havia quem dissesse que o tinha visto ser levado por um qualquer homem sombra que ninguém sabia descrever. Havia quem jurasse a pés juntos tê-lo visto ser esmagado pela multidão em fuga durante mais um confronto cujo fundamento se cansara de tentar perceber.
Indira preferira não acreditar em nenhuma daquelas histórias. A sua criança amada não podia ter sido levada daquela forma… Não… Era uma luz demasiado brilhante para ser apagada com tamanha brutalidade. Já lhe bastava ter perdido o amor de uma vida às mãos do próprio pai, pelo simples facto de ser um “intocável”, e de com ela ter gerado a criatura mais bela que alguma vez pudera imaginar. A loucura dos homens não lhe poderia roubar mais uma parte de si… Não ia admitir que as divisões absurdas de uma sociedade em que não pedira para nascer lhe dilacerassem a alma mais uma vez… Ia continuar a procurá-lo, nas águas do Ganges como nos caminhos de uma cidade que sempre lhe parecera demasiado grande mas que desde aquele dia se lhe afiguravam de uma enormidade inconcebível.
Naquele fim de dia, que tanto se assemelhava àquele que mudara para sempre a direcção dos seus passos, anos atrás, Indira voltou, como todos os dias, a entrar nas águas sagradas e a esperar, olhando o reflexo do sol poente nas rugas dançantes do manto líquido.
As palavras do filho voltavam-lhe sempre à memória:
- Ammi, quando for grande vou até ao fundo do Ganges! Se lá é o único sítio onde todos são iguais, só pode ser lá que moram os deuses, e eu tenho que falar com eles.
- E que dirias tu a um deus, meu filho?
- Ia pedir-lhes para virem cá acima, a ver se as pessoas começam a ser iguais cá fora também!
Todos os dias Indira olhava as águas do Ganges, imaginando que, algures lá em baixo, o seu pequeno anjo andava de porta em porta em busca de um deus que mudasse o seu mundo. E todos os dias, até ver o sol mergulhar no seu horizonte disforme, ela acreditava que, mais cedo ou mais tarde, ele havia de de lhe voltar aos braços, de olhos brilhantes e sorriso rasgado, enchendo-lhe a vida de alegria, como sempre fizera…
Um dia, com deuses ou sem eles, ela provaria ao mundo que a única força necessária para mudá-lo era aquele amor que, todos os dias, a reconduzia àquele mesmo lugar onde, ao pôr-do-sol, a magia da natureza lhe permitia voltar a sentir bem perto aquele que esperava com a fé inabalável que só um coração de mãe guarda…
Esperou que ele chegasse, mas, enquanto viveu, não o viu voltar…
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