sábado, 31 de março de 2012

Anya


Estava perdida. Perdida e irremediavelmente sozinha, numa terra que não reconhecia mas que todos os sinais insistiam em relembrar-lhe que era a sua.
Há semanas que vagueava sem destino por entre os escombros de um mundo que há já muito não era o seu. Perdera-se dos seus mas, acima de tudo, de si mesma.
Sentia ter no lugar do coração uma qualquer estrutura de barro vazia. Sentia como se ele tivesse ardido por dentro, mantendo por fora a aparência de que tudo estava exactamente igual, como desde que se lembrava soubera fazer com o seu semblante.
Aqueles últimos meses tinham sido tão felizes… Amara como nunca até então e, pela primeira vez na vida, sentira-se amada da mesma forma. Encontrara noutro ser o espelho de si própria, reflectido num olhar penetrante que a deixara sem fôlego desde o primeiro momento. Deixara-se apaixonar por promessas silenciosas, por sentimentos partilhados, mas, mais que tudo o resto, por sonhos em comum. Ele era perfeito… Até perfeito demais para ela, sabia-o, e por sabe-lo sabia que, finalmente, o encontrara.
Nunca mais o vira desde que os bombardeamentos haviam recomeçado. A cidade desfizera-se em cinzas e com ela o seu coração. Já quase não o sentia bater. Era como se, de facto, se tivesse transformado num mero músculo, pulsando como uma máquina, porque assim tinha de ser e não porque fizesse algum sentido.
Toda a vida aprendera a lidar com as dificuldades. Desde sempre soubera o que era a dor da perda, e foi-se sentido tornar mais forte à medida que cada um daqueles que amava lhe era retirado como se por uma força maior que o mundo. Mas agora já não sabia sequer se acreditava em Alá... Sempre estivera certa de que havia algo maior que a ia guiando, protegendo, consolando, mas, agora que perdera o único amor pelo qual tivera que lutar, já não sabia no que havia de acreditar…
Ele era israelita. Vivia do outro lado da fronteira e ali tinha a sua família. Abandonara tudo por ela… Havia-se alistado nas forças militares para lutar por uma causa que desde sempre fora sua, mas percebera que aquela guerra não fazia sentido assim que a conhecera. Salvara-lhe a vida, de todas as formas possíveis e imagináveis, mas Anya abrira mão dele.
Amava-o demasiado para suportar o sofrimento que lhe causava vê-lo em constante angústia, dividido entre o que sentia por ela e aquilo que toda a sua vida acreditara ser o seu dever, aquilo que o mundo que era o dele lhe exigia que fizesse. Ele estava disposto a tudo por ela, mas ela, em nome desse mesmo amor, não era capaz de fazer algo que o fizesse sentir perdido. Não a ele... Queria ser o brilho de alegria daquele olhar que a enchera de esperança, e não a causa da sua tristeza, do seu desalento, das suas dúvidas. Queria estar ao lado dele sempre que ele precisasse, e não ter que fugir, que esconder o que de mais belo alguma vez sentira ao longo de toda uma existência. Queria vê-lo feliz, ou, se não o visse, pelo menos saber que ele estava em paz, consigo próprio e com o que quer que a sua fé lhe ditava ser o correcto.
Anya era palestiniana, e sempre vira o lado de lá do muro como o inimigo, o mal, o cancro que devastava a sua terra. Nos últimos tempos aprendera a olhá-los com complacência. Ele ensinara-lhe isso... Mas agora de nada lhe valia, aliás, começara a odiar-se por sequer pensar em amar a quem a afastara de tudo o que alguma vez dera sentido à sua vida.
Decidira esquecer que alguma vez o conhecera, apagá-lo para sempre da sua memória, e, para sua surpresa, de certa forma, parecia tê-lo conseguido, mas era como se tudo o resto se tivesse esvaido. Era como se tivesse tomado uma qualquer poção mágica que não lhe apagara as memórias mas lhe roubara os sentimentos. O que quer que restasse agora dentro do seu coração, não era algo de que se orgulhasse. Era como se tudo o que de bom guardava em si se tivesse concentrado no lugar que ele ocupava, e agora que aquilo que sentia por ele se tinha desvanecido, ou de alguma forma camuflado, custava-lhe encontrar em si aquilo a que, cada vez mais, lhe custava chamar coração.
Quando o tinha por perto tudo fazia sentido, todas as peças encaixavam na perfeição. Agora... era como se tivesse perdido o fio condutor da sua vida e, por muito bem que conhecesse as entranhas do sofrimento, o facto de nada sentir assustava-a mais que qualquer outra coisa.
Não sabia sequer se ele estava vivo ou morto... E, de repente, o vazio...
Naquela tarde, enquanto vagueava pelas ruas de uma Rafah desfeita, encontrou a esperança nas mãos de uma mulher que se alimentava de mágoas.
Fatima era curandeira, diziam que tinha mãos abençoadas e que com elas conseguia fazer desaparecer qualquer dor, física ou não. Desde sempre fora uma grande amiga e conselheira da sua avó, a única família que ainda lhe restava mas de cujo paradeiro nada sabia, e, agora que não a tinha junto a si, nem qualquer outra pessoa com quem pudesse partilhar a sua mágoa, ao encontrar aquele rosto que lhe era familiar, Anya permitiu-se deixar que o que quer que fosse que a queimava por dentro se fizesse notar no exterior do seu ser.
Chorou como já não fazia há anos, desde que o seu pai morrera, vítima de um ataque aéreo como aquele que, meses mais tarde, lhe levaria a mãe e o irmão. Já não se lembrava do sabor salgado das lágrimas, da sua textura suave e do seu toque quente… Com o coração como estava, imaginara que mesmo as lágrimas que algum dia viesse a chorar só pudessem ser geladas, ou enegrecidas pela cinza… Mas não, eram iguais às de qualquer outra pessoa, às de todos aqueles que vira em pranto ao longo de tantos anos...
Fatima não disse nada, foi como se lhe lesse os pensamentos. Ao ver a jovem abeirar-se, apenas se aproximou e envolveu-lhe os ombros com os seus braços. Ficaram assim durante aquilo que a Anya pareceu toda uma infância perdida no tempo.
Enquanto o sol descia no horizonte, sentiu o ar regressar aos seus pulmões, e, fitando o mundo que a levava de volta ao seu sofrimento, perguntou num sussurro:
- Algum dia terei o meu coração de volta?
Fatima continuou em silêncio, acompanhando a respiração de Anya até que o seu ritmo se tornou brando. Pegou-lhe nas mãos com o mesmo cuidado com que se toca uma bolha de sabão colorida, e, com uma ternura que lhe encheu a alma, falou-lhe no mesmo tom:
- Não há nenhum fogo que não dê luz, e se a tua alma está em chamas, não permitas que te queime, mas antes que te aqueça o coração. Das cinzas também pode brotar a vida, minha querida. A tua tarefa é aproveitar as suas propriedades, plantar a boa semente, e dar-lhe espaço e tempo para crescer. Nenhuma luz foi criada para se esconder. Não deixes que a dor te apague, e terás oportunidade de renascer... Sempre.
As palavras e a voz suave daquela mulher que lhe aparecera como se de um anjo se tratasse, confortaram-lhe a alma e fizeram-na sentir que podia respirar de novo, preenchendo-a de uma paz que há já muito desconhecia.
Através da janela, cravada na única parede parcialmente resistente de uma casa reduzida a escombros, qual bastião indestrutível da força inabalável de um povo votado à ilegalidade na sua própria terra, Anya olhou o sol desaparecendo no horizonte, e lembrou-se daquilo que uma noite ouvira do pai que tentava acalmar o irmão mais novo. A escuridão absoluta das noites de Rafah podia ser aterradora, mas o pai sempre soubera encontrar as palavras certas para os fazer sentir seguros:
- Sempre que o sol desaparece no teu horizonte, há muitos corações que, no silêncio, agradecem aos céus pelo novo dia que nasce.
Anya sorriu de novo, sentindo o bater sereno do seu coração, e percebendo aquilo que durante demasiado tempo se lhe fizera difícil compreender: que ele já há muito não lhe pertencia, mas era, antes, uma parte daqueles a quem amava e que acompanharia para onde quer que seguissem...