domingo, 10 de agosto de 2025

"Anónimos" (...e números...)

 

Só o conhecia de nome. Sabia que o “Diogo Jota” tinha ajudado a algumas das (também minhas) alegrias da seleção, mas nem a cara lhe tinha presente… 

Há 20 anos atrás tinha chorado pelo Fehér, depois de morrer em campo defendendo as cores da equipa que sempre disse ser a minha (por ser aquela que sempre apoiou o meu pai). A morte do Miki (tornou-se tão “presente” que cheguei a esse ponto de “proximidade”) e o que se lhe seguiu, ajudaram-me a perceber e sentir, na altura, "a mística do Benfica". Contudo, a "minha equipa" sempre foi, e agora é só (quando não estou demasiado chateada com os valores absurdos que envolve o futebol), a seleção nacional. Por isso me surpreendeu ainda mais que nem sequer soubesse bem quem era "o Jota"... Independentemente disso...

...uma morte é sempre dolorosa, de forma particular quando se pensa que a pessoa tem ainda muito que viver…. Dói mais saber da dor dos pais, dos filhos, dos avós, da mulher, dos amigos.... Pior ainda quando se trata de dois irmãos… E um deles parece, de alguma forma, “familiar” …

 

Dói-me igualmente perceber que crianças que perdem pais e pais que perdem filhos em Gaza e em toda a Palestina, no Sudão, no Iémen, no Irão... até na Ucrânia... não tenham a mesma importância para quem define (ou tenta definir) aquilo com que nos devemos importar... São números, meros números de contas que nunca fizeram sentido, mas cada vez fazem menos... 

Não é porque não os conheçamos, porque não nos são queridos. Também não conhecíamos o Jota, nem o Fehér, nem o Rui Filipe... Mas sabemos-lhes os nomes e vimos-lhes a cara, e alguém nos disse que são boas pessoas. São "dos nossos".

Que triste que nem todos sejam "nossos"...

 

E mesmo assim, no caso do Jota, foi preciso que morresse para que soubéssemos da "pessoa boa que era", que era tão adorado pelos apoiantes do clube que agora era casa para ele que até (ingleses!) lhe criaram um hino, que foi um dos jogadores portugueses com mais jogos na liga inglesa de sempre (só o CR fez melhor), que tinha criado uma escola na terra que o viu nascer para dar aos miúdos tão sonhadores como ele mais oportunidades do que as que teve, que tinha criado uma equipa para dar azo a um dos seus hobbies... "Era um grande profissional" de que de repente Portugal se orgulha porque já cá não está... Não que lhe importasse, certamente, porque se era realmente como dizem, então certamente não lhe importaria, mas que as conquistas de um homem só sejam celebradas quando já cá não está para celebrá-las.... devia fazer-nos reflectir...

Ainda assim, de alguma forma, ele foi mais que um número.... Tanto por ele quanto pelo Fehér, números foram imortalizados até.... Para aqueles que, para a maioria de nós, não são mais que números, sê-lo não traz "honra" nenhuma, porém…. Geralmente não é mais que sinal de enorme sofrimento… 

A uns imortalizam números, a outros não deixam ser mais do que isso.... Nem mesmo os futebolistas (e já morreram mais de 800 na Palestina, só desde 2023... Já para não falar de jornalistas: já morreram lá, no mesmo período, mais que em todos os conflitos armados desde a 1.ª guerra mundial... Silenciados para que a verdade completa não se saiba...Mas sabe-se na mesma, e nem assim o mundo reage..)

 

A morte sempre esteve muito presente na minha vida. Nunca ninguém me escondeu nada ou tentou poupar do que quer que fosse. Perder o único a quem chamei de avô aos 9 marcou-me para sempre. Criou-me um medo, em alguns casos paralisante, de perder aqueles que me são queridos sem lhes fazer saber o quanto são importantes para mim.

O medo ensinou-me alguma coisa, mas acima de tudo causou-me muito sofrimento antecipado. Viria a ver partir muitos mais que me são muito queridos desde então. Não fica mais fácil, diria mesmo, antes pelo contrário. Mas é verdade que se há coisa que a finitude da vida nos dá é a noção da importância de dar valor a quem queremos bem, enquanto cá estão/estamos; a aproveitar as presenças enquanto têm forma visível, a abraçar enquanto os abraços se podem sentir, a partilhar ideias enquanto as vozes se podem ouvir...

E a recordar que a responsabilidade de todos estarmos o melhor possível não é só de alguns.

 

Estar do lado certo da História não basta, é preciso ajudar a que a História esteja certa!!!

 

A cobertura do sofrimento da família dos irmãos futebolistas faz-me pensar no quão errados estão os nossos valores: quando mostrar (e ver) a cara chorosa de quem sofre é mais importante que dar o devido espaço para o luto a quem dele precisa...

Tudo isto me faz também pensar no quão errado está um mundo em que se fazem automóveis que dão tanto mais do que a velocidade permitida por lei... Como é que o dinheiro pode comprar o direito de se porem vidas em risco? Pode não ter sido o caso, mas são tantas as situações de jogadores mortos na flor da idade em carros de alta cilindrada.... Podia acontecer com qualquer um, com qualquer carro, é verdade, mas que seja tão comum nestas circunstâncias....

Faz-me penar na minha querida amiga Fer, morta, não dias depois, mas no próprio dia do casamento dela... Ela e o marido, assassinados por um jogador de futebol ao volante de um carrão... Nunca foi condenado, porque "importante" demais para sê-lo...

 

Não é a mesma situação, não, mas faz-me pensar... Que raio de mundo é este em que ter dinheiro é sinónimo de poder fazer tudo e não o ter é sentença a não poder fazer nada, ou a ser maltratado e mal visto por fazer o que quer que seja?

Que raio de mundo é este em que ser um criminoso não é impedimento para entrar num país, mas ser originário de um país pobre o é?

 

Porque é disto que se trata, caros apoiantes de quem no nosso governo fala de "novas regras da imigração": não tem nada que ver com proteger-nos dos criminosos - os maiores deles são eles próprios e neles ninguém toca (veja-se o Sócrates, o Costa, o próprio do Montenegro e quem mais por lá anda a gabar-se de ser santo sem ser!), tem que ver com pôr quem acha que está mal contra quem realmente está, e assim distrair-nos a todos de quem realmente tem culpa no cartório em relação a tantos dos males que nos afetam.

É dos imigrantes a culpa de nos terem dado conta do sistema nacional de saúde? Foram eles que fecharam os centros de saúde? (ou quase, que isto de ter uma hora específica para ir às urgências e ter que ser um dos primeiros 10, é quase o mesmo que estar fechado... E sim, pessoas dos grandes centros urbanos, isto existe no nosso país! Entre muitas outras coisas que nem vos passam pela cabeça…)

É culpa dos imigrantes que não haja leis e law enforcement capazes de obrigar quem rouba milhões a devolver o que roubou e compensar quem sofreu as consequências?

É culpa dos imigrantes (aqueles que vemos como tal, porque branco europeu e norte-americano é ou “nomad” ou “expat” ...) que os gangues da droga (geralmente encabeçados por ingleses, espanhóis ou portugueses - também os há brasileiros, sim, mas isso é toda uma outra história) entrem e façam o que querem em Portugal? 

Também deve ser por causa "deles" (e das casas feitas para 2 onde moram às dezenas ou das tendas que são a única tipologia de casa que podem pagar), que os preços da habitação são incomportáveis para os portugueses... (não das estrelas de Hollywood e migrantes muito mais abastados que nós que para cá vêm para aproveitar o nosso sol e "custo de vida baixo" - para eles.... que nem sequer pagam impostos cá...)

É culpa "deles" que os funcionários não públicos do nosso país tenham que trabalhar até aos 66 e não tenham uma pensão em condições? Ou será dos senhores que ganham milhões de reforma todos os anos sem nunca terem feito mais do que usar o nosso dinheiro de forma duvidosa? 

 

A culpa dos incêndios se calhar também é “deles”, agora.... É sabido que foram os imigrantes que trouxeram o fogo para Portugal... E, mais ainda, que são deles as empresas que depois beneficiam da destruição e mortes nas terras pequenas do país (as que não interessam nada para as contas, porque nós também somos “anónimos” ...) quando vêm logo a seguir oferecer dois tostões pelos terrenos ardidos para exploração de lítio ou construção de parques eólicos. 

 Sim, é isso que está a ser feito!  

Podemos deixar de ser parvos e de culpar as faíscas dos motores pelos incêndios assassinos e a garrafa de plástico que o “anónimo” não recicla pelo aquecimento global, por favor? Que cada um faça a sua parte acho muito bem, que se use “o anónimo” como bode expiatório para tudo, já não há pachorra...  (e sim, tu também és usado, ou ainda não tinhas percebido que não eram só os imigrantes pobres e os ciganos?)

Será que os incêndios causados por mão criminosa (toda a gente sabe que é, para quê continuar a mentir?!) e que não encontram resposta porque alguém está demasiado ocupado a fazer negócios com empresas que nem têm o que é preciso (os helicópteros acordados e que não funcionam, por exemplo!), não contribuem para dar conta da camada do ozono? (ela ainda existe, a bendita?)

E os jatos privados dos poderosos do mundo e celebridades, não contribuem também? Nem as grandes empresas que dão capital a essa gente? Não, a culpa é do Zé povinho, e ele que coma e cale, porque o problema está nos carros antigos...

Se calhar a culpa das guerras que há “nas terras deles” e que obrigam muita gente a fugir e a procurar ajuda cá também é “deles” ... Não é da maravilha que foi e continua a ser o nosso colonialismo (e o dos outros todos, que há certos países por aí que não só ainda têm reis como ainda têm ultramar… Mas está tudo certo porque são brancos e ricos, portanto devem ser “pessoas de bem” ...)

 

E o que dizer de um mundo em que cantar uma canção ou fazer um post criticando genocidas é considerado terrorismo, enquanto que o verdadeiro terrorismo (que é um genocídio, ainda por cima!) é visto como uma coisa normal?

Como é que é possível que os sentimentos de psicopatas assassinos tenham mais valor que as vidas de inocentes? Porque os inocentes são “anónimos” e os assassinos não?!!

O que é que dá aos assassinos o direito de fazer piadas com o que vai acontecer às pessoas de outros países que, por não serem ricas como alguns (e só por isso!) vão ser mandadas para prisões no meio de jacarés, caso tentem fugir?

E isto é só do que se ouve falar porque há tanta mais barbaridade a acontecer neste mundo que nenhum livro seria suficiente para cobrir tudo...

 

Se calhar também são os imigrantes que ditam o fecho das urgências de obstetrícia, não são as regras que permitem que os médicos tirem todos férias ao mesmo tempo... As mesmas que ditam que as minhas consultas no IPO continuem a ser adiadas e que pessoas que lá chegam para ir às urgências sejam mandadas para outro hospital (que nada sabe de oncologia) ...

São “eles”, “os outros”, sempre foram, porque culpá-los a “eles” é muito mais fácil e menos perigoso que virar o foco para os reais responsáveis.

Também é “deles” a culpa de pessoas passadas da cabeça andarem a atacar quem deles cuida de alguma forma. É "deles" a culpa do nazismo e do Hitler e de tudo o mais que com isso se relacione…

Na verdade (espantem-se os que estiveram distraídos nas aulas de História!), é dos líderes dos países que ganharam a 1a guerra mundial. Se não se lembram quem são esses (tão bons quanto os que a perderam), vão lá ver aos vossos livros - que na verdade não servem de muito porque extremamente tendenciosos, mas sempre melhor que usar os vídeos da Chega TV para se informarem sobre o que quer que seja....

 

Sabem outra coisa? Essa história toda da “caça ao ilegal” …. Sabem que a mulher do presidente Trump entrou irregularmente (sim, porque ilegal não é ninguém!) nos EUA, não sabem? Também devem saber que ele é tão original dos EUA como todos os outros que são filhos de imigrantes naquele país (que são quase todos, porque os colonos fizeram muito bem o trabalho de arrumar com aqueles que eram realmente os originais daquelas terras).

 

Já agora, também devem ter ouvido dizer que o Hitler era tão judeu, homossexual e portador de deficiência (física, causada pela participação na 1a grande guerra) quanto muitos daqueles que mandou matar. Se cada uma destas alegações é verdadeira ou falsa não sei, mas pouco deve importar, dado que parece pouco importar verificar cada uma das alegações tremendas que se fazem acerca de migrantes e (espantem-se!) se há coisa que Hitler era mesmo, era imigrante (austríaco, na Alemanha)!

Sabem o que é que o Hitler era também? Um miúdo maltratado pelo pai que perdeu a mãe cedo demais, vai daí tornou-se num psicopata que em lugar de alguém ajudar a tratar, muitos (demasiados) decidiram que era bem seguir, porque igualmente frustrados e incapazes de olhar claramente para a realidade e ver que a culpa de estarem na situação em que estavam não era daqueles a quem os seus líderes decidiram culpar.

 

Sabem quem mais é que se comporta assim, mas com muito menos razão (como se alguma coisa o pudesse justificar....) que o Hitler para o fazer? O seu legítimo sucessor. E mais sobre ele não digo porque me causa demasiada repulsa, a esta altura do campeonato... Porque ele "tem nome", mas os milhares que mata todos os dias continuam a ser, aos olhos do mundo, “anónimos” ...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Ceasefire...

 

CEASEFIRE MAKES IT MUCH BETTER (for there are no bombs constantly destroying hospitals and whatever other place is supposed to be guaranteed to be safe by international law), if the situation is compared to what it became after 07.10, but long before that it was anything but good already, and it still is.

HISTORY DIDN'T START IN 2023, as Israeli supporters and “western” media (not sure if separating the two is very accurate…) seem to want to make us believe. Long (more than 70 years) before there were rockets causing destruction, heavy machinery (sold by big “western” companies) bulldozing houses and land being stolen, bullets stealing lives, random arrests turning thousands into "prisoners". It's not by chance there are so many to be traded, and unlike Israel and the “western” media want to make us believe, MANY ARE WOMEN AND CHILDREN – and I finally found one reason that may justify the fact they are never called “hostages”: the idea was never to return them in the first place! So yeah, keep on calling them prisoners, which they've been for long, most under no other excuse than maybe trying to resist the unfair treatment they're subjected to daily by the occupying power…. For some reason, though, Israel's moves are never called terrorism, even if it's a country supposedly based on a religious identity which tends to be used to justify whatever violent action.

The everlasting indifference by the international community regarding all of this makes it so for a Palestinian to have an identity document it must be issued by the Israeli authorities (which have very little interest in their existence let alone in giving them official recognition), which makes many irregular wherever they go, besides being unable to return to their own home (while jews all over the world have the "right to return" to a land where they've never lived, neither any of their ancestors in many cases). It's easier for me, with no connection to the Palestinian land whatsoever, to get in than to someone actually born in there. Thousands of Palestinians born in refugee camps in neighbouring countries are considered "Palestinians born in..." (Jordan, for example). If ever issued a document in Europe, though, the nationality section might be blank….

Palestinians' right to defend themselves or even to exist has been taken away by a state that has been proceeding to ethnic cleansing for more than 70 years now, justifying it on their own "protection". If they didn't go there and occupy something that wasn't theirs while killing thousands, all (and that was more than enough already) they had to defend themselves from was western countries' long-lasting bullshit (mainly fuelled by envy, maybe?) against them. It was easier for "western" countries to put them in a strategic position (full of oil) while backing them up in dealing with their trauma on their own (doing to others what was done to them) then to deal with responsibility and guilt, I guess... Meanwhile, innocent Palestinians have been subjected to several generations of trauma and human rights' (defined as such and said to be promoted by “western” countries) constant violations (while their support goes exclusively to a genocidal state).

Only “western” are entitled to fight for freedom? Whose freedom? And what is “western" anyway? Isn't the world round?

CEASEFIRE IS ESSENTIAL BUT CEASEFIRE IS NOT ENOUGH! It does make things infinitely better (given the extent of violence the alternative entailed) but it does not erase what was done and it does not change what is still happening under everyone’s noses (and with the support of most, whether being aware of it or not).

By the way: AMERICA IS A CONTINENT! and HUMAN BEINGS ARE ANIMALS! (much more irrational than many others, so it seems) - what are children told in school nowadays? – so, calling anyone "animal" can only be used as an offense by someone who doesn’t even know how much of an animal they are….

Also, IMMIGRATION IS NOT A PROBLEM, USA's leadership is – the only point in which there is some coherence, in fact, since all USA's leaders are of migrant descent... So, yeah, maybe they do have a point after all... (and in what comes to the quality of leadership it does apply to many others)

NATIVES SHOULD HAVE BUILT A WALL!!! If only they were given the chance….

And REMEMBERING AUSCHWITZ IS TOTALLY USELESS if what was done in there is used for nothing but to justify the same kind of inhumane politics and treatment as those applied by then.

That's it, for now. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

O ano da Fénix



02.04.2024. Resultado: filoide maligno. 

Ninguém espera um resultado destes, mas para mim não foi uma surpresa:

depois de tanto sofrimento guardado, de tanta lágrima sufocada, tanto grito abafado durante tanto tempo e de uma forma muito violenta nos meses que tinham antecedido o resultado;

depois de um ano de perdas, culminando com a mais dolorosa até hoje, e de vários meses de sofrimento a sós, no meio mais hostil e menos empático que já conheci; 

depois de ter tido um susto no anterior e não ter mudado aquilo que sei que precisava de ser mudado na minha vida, aquele resultado fazia perfeito sentido. 

Era como se todas as minhas dores, arrependimentos e silêncios se tivessem juntado num ponto do meu corpo e alimentado uma alteração genética que deu origem a um tipo de anomalia que, sendo minha, só podia ser raríssima e super organizada.😉

Houve momentos de muita coisa… Não é que alguma vez o tenha tido, mas quando perdes total controlo daquilo que te acontece, quando a tua vida está, em absoluto, nas mãos de outros e das suas decisões, é-se forçado a aprender umas coisas….

Mas deixar-se guiar totalmente nunca foi uma possibilidade para mim (nem a dançar, quanto mais…), para bem e para mal... Neste caso, porém, o facto de não me acomodar acabou por ser, na verdade, uma bênção.

Quando me disseram que era urgente e o primeiro exame foi marcado para dali a dois meses, desesperei…. Mais ainda porque via o bendito a crescer a cada dia. Se era urgente e se estava a crescer, porque não estava nada a ser feito? Perguntei, com respeito, sempre. E valeu: a data que era para o primeiro exame acabou por ser para a primeira cirurgia. 

Não queria passar à frente de ninguém em situação mais urgente, mas também não podia deixar que o meu caso ficasse esquecido, à espera de piorar, talvez apenas por não dizer o que se estava a passar comigo. 

O processo era deles, mas o corpo é meu.

E ouviram-me. E voltaram a ouvir-me quando, meses mais tarde, me disseram, sem explicar nada (porque greve de médicos…) que ia ter que fazer rádio e quimioterapia. Eu, a quem tinha sido dito que podia não ter que fazer nada e a quem acabavam de dizer que já estava livre do mal depois da primeira cirurgia. Eu que já tinha feito uma segunda. 

Não questionei a decisão, mas pedi que me explicassem porquê. E o meu pedido podia não ter resultado em nada, mas acabou por levar o processo para as mãos de quem realmente estuda e trata a raridade e sabe que não há dados que comprovem o efeito de uma terapia com danos colaterais tão graves neste tipo de problema. 

Fiz mês e meio de rádio, todos os dias, sem me queixar (muito), e acabariam por decidir não me sujeitar aos efeitos nefastos da quimioterapia sem um propósito claro. Terminei no dia 24 de Dezembro: um belo presente de Natal! 😊 

A grande lição de tudo isto: fala! Confia, mas não deixes de falar! Partilha, com quem se ocupa da tua saúde, os teus medos, as tuas inseguranças, as tuas dúvidas. Pergunta. Não duvides, mas questiona. É o teu corpo, a tua vida. Por muito que os profissionais de saúde queiram, não podem dedicar a cada um dos doentes o cuidado que só cada um pode ter consigo próprio.

E acima de tudo: não abafes dores, angústias, mágoas e lágrimas.... Tantas lágrimas engoli para não preocupar, para não incomodar, para não deixar alguém triste.... Abraça o que sentes, honra o que sentes. Os teus sentimentos são tão importantes e válidos como os de qualquer outra pessoa. Não os escondas, não os sufoques. Mais cedo ou mais tarde, essas dores encerradas em ti acabam por manifestar-se, muitas vezes em forma de doença.

Não faças como eu, não deixes chegar a esse ponto. Procura ajuda, aceita ajuda, está abert@ a sentir e a dar a saber o que sentes também. Ninguém aprenderá dos erros que cometeram contigo se não lhes fizeres saber o quanto te magoaram. Dá essa oportunidade de crescimento também. Se a usam ou não, não é responsabilidade tua, mas não negues essa oportunidade. E, acima de tudo, não negues a ti próprio o direito de sentir e expressar o que sentes.

É essencial, é a tua verdade, e pode poupar-te muitas mais dores.

Neste caso, e como em tantos outros, não fiz questão de esconder, nem fiz questão de contar.

Se sentes que deverias ter sabido por mim e soubeste por outra pessoa ou só estás a saber agora, não é porque não confie em ti, é porque simplesmente não fez sentido dizer-te quando nos encontrámos ou não houve espaço e tempo para contar.

Se achas que isto é informação a mais e que não precisavas de saber disto: não te pedi que lesses. Salvo raras excepções, não escrevo para ser lida, escrevo porque preciso de escrever, e se alguns textos acabam publicados é porque por algum motivo acho que podem fazer sentido para e/ou ajudar outras pessoas. Este é um desses.

2023 foi o ano do terramoto, de muitas perdas irreparáveis (outras nem tanto) que abanaram a minha realidade de forma violenta. Seguiu-se um tsunami, que me deixou debaixo de água durante quase todo o ano de 2024. Foi um ano de cura, de parar finalmente, de repensar muitas coisas e priorizar-me. Terminou também com fogo, literal, a reduzir demasiado a cinzas. 2025 está fadado a ser o ano do renascimento, de ser fénix que se reergue da destruição.

Assim seja.



 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Madrinha

Já foi há um ano que te abracei pela última vez....

Parece que foi ontem e ao mesmo tempo, há tão mais que isso...

A única vez em que não me passou pela cabeça que pudesse ser a última... A única em que não ficaste com lágrimas nos olhos ao ver-me ir embora: "de caminho estás aqui outra vez” ... E assim foi... E ainda mais cedo do que era suposto, e mesmo assim, não foi suficiente....

Isto de as coisas acontecerem quando menos esperamos.... Tanto para bem como para mal, o que quer que seja “bem e mal” …

 É certo que nunca te chamei de avó, sempre foste minha madrinha - mãe em Deus... - mas foste mãe de tantas maneiras.... Minha melhor amiga.... Minha companheira…. Minha casa, meu abrigo....

Quanta falta me faz o teu abraço apertado, o teu sorriso constante, a tua gargalhada até às lágrimas, o teu sentido de humor... As tuas histórias, as tuas lengalengas, as tuas saídas sempre engraçadas, as tuas imitações perfeitas…. O som dos teus passos a chegar a casa, da tua máquina de costura; a tua bênção diária, silenciosa, as tuas orações constantes; o cheiro a fumo na cozinha e a cera no chão da sala; o teu aceno à porta sempre que me vias chegar…. 

Chegar e não te ver não é chegar…

 Que falta me faz o teu “muitos beijiiiiinhos”, o teu “boa noiteee!”, e até os teus beijinhos nos ouvidos… Os teus elogios às minhas pernas e às minhas artes; as tuas tranças e o teu cafuné; os teus avisos sobre o cabelo molhado e o sol na cabeça… Até os teus muitos “Não vás!” e “Vai, vai, minha menina, p’ra vires embora depressa” … Os nossos jogos e as tuas novelas…

Sempre foste um sol. Uma guerreira. Uma força da natureza. Sempre soubeste, sem fazer por isso, apanhar-nos desprevenidos com uma gargalhada nos momentos mais inesperados.

Sempre adoraste jogar às cartas, ter a família junta, jogar às cartas com a família, acolher em família quem jogasse às cartas contigo…

Adoravas todas as coisas que crescem. Plantá-las cuida-las, vê-las crescer. Adoravas todos os animais, choravas quando os que cuidavas acabavam por desaparecer...

Se alguém partia, porém, tinhas sempre a mesma tirada: foi na hora dela!

Mesmo que te doesse o mundo, rias e fazias rir…

Tudo o que fizeste foi amar.... Cuidar.... Ver crescer.... Ajudar a crescer...

 

No teu jardim há laranjas maduras espalhadas pelo chão…

Há laranjeiras regadas com o teu amor…

Há cheiro a flores de todas as cores que nunca deixaste de cuidar

Há todo um mundo de vida com que nos continuas a alimentar…


O meu sol não se apagou, vive em mim, em cada pedacinho que ainda é capaz de enfrentar a dor com um sorriso, em cada pedacinho de mim que é capaz de rir em situações difíceis, em cada pedacinho de mim envolvido em fazer alguém sorrir inesperadamente… E em cada olhar que me devolve o carinho que tinhas por quem te cruzava o caminho, a quem nunca deixavas de saudar com amor, e que hoje vem até mim falar das saudades que também sente de ti…

Afinal tenho uma certeza, independentemente do que haja ou não além daqui: tu vives em mim e isso nunca poderá mudar…. E de cada vez que me cuido é de uma parte de ti que estou a cuidar…


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Ano Novo


Em Junho de 2021, de passagem por uma das mais movimentadas capitais europeias, cruzei caminho com estes dois raios de luz.
Brincavam alegremente com a bandeira do país que, mesmo amando aquele onde estão, continuam a chamar casa, e para onde desejam regressar assim lhes seja possível.
Enquanto isso, pais, avós, irmãos e amigos manifestavam-se pacificamente, fazendo ouvir, a quem se dignasse prestar atenção, uma verdade desesperante: "o Paquistão está a matar-nos!"
A lista de sofrimentos dos afegãos e seus responsáveis é longa, mas naquele momento a prioridade era o facto de aqueles que deixaram para trás não poderem fugir de uma morte que, em demasiados casos, é certa.
Outras verdades à parte, o Paquistão estava a matar os afegãos por lhes fechar as portas, deixando-os à mercê de quem os quer matar ou, em muitas situações, reconduzindo-os de volta às mãos daqueles, depois de se terem julgado a salvo em território paquistanês.
Um grito que já é igualmente premente às portas da Europa há demasiado tempo, ainda que este ano se tenha, talvez, para os mais distraídos, tornado mais evidente.

Há 5 anos, num campo de concen... num sítio que se convencionou chamar de campo, na Grécia, tive o privilégio de conhecer, entre muitas maravilhas da criação, uma de muitas extremosas e lutadoras mães de família afegãs.
Entre muitos sinais de generosidade partilhados, Mariam pediu-me, como certamente fez com todos aqueles que a ouviram, que fizesse a sua história chegar a tantos quantos me fosse possível.
Contou-me ter sido secretária numa empresa em que trabalhavam homens.
Contou-me que os filhos já estavam em casa há algum tempo, depois de bombas terem destruído algumas escolas na cidade em que viviam, quando começou a receber ameaças telefónicas no trabalho.
Contou-me como não se vergou ao medo até que o perigo se tornou demasiado evidente, ao saber da decapitação de uma amiga, cabeleireira, que, tal como ela, trabalhava com homens.
Contou-me ter sido então que decidiu partir com a família, rumo à prometida segurança além-fronteiras.
Contou-me de como se fez acompanhar pelo seu computador portátil ao longo de todo o caminho, de como o protegeu como pôde, abraçado junto ao peito, por ser ali que guardava todo o seu trabalho, todas as fotos da família, toda uma vida de esforço e memórias.
Contou-me também, de olhos marejados, sobre como o atirou ao chão quando, no meio da noite, se viu entrar num barco para uma travessia sem garantias ao largo da Turquia... De como, então, usou cada segundo daquela viagem para fixar os olhos de cada um dos seus três maravilhosos filhos, durante o máximo de tempo possível, não fosse algum pedaço de mar engoli-los e ser aquela a última vez...
De como estava grata por terem todos chegado em segurança àquela terra e do quanto precisava que os europeus soubessem que nenhum deles estava cá para tirar nada a ninguém. Que se tinham fugido das suas terras e vidas era porque realmente não tinham outra solução. Pediu-me que contasse a sua história, se necessário, caso alguém precisasse de um exemplo concreto daquilo que tantos têm para contar, mas muitos não conseguem expressar...

Quando notícias de famílias polacas a acender luzes verdes em casa, para assinalar pontos seguros para seres humanos a fugir de uma guerra, se tornam, literalmente, numa rara réstia de esperança...
Quando pessoas que o fazem, ou arriscam a vida para salvar outras no mar, se arriscam também a ser condenadas, ou são mesmo encarceradas por fazê-lo...
Não consigo deixar de pensar que estamos de volta ao período que, todos os anos pelo menos, boa parte dos europeus jura não voltar a repetir...
Quando penso que há milhares de Mariams e seus filhos, e seus pais e tios e avós e netos, a morrer de frio e fome às portas de arame farpado que nascem a cada dia Europa fora... Agora na Polónia, na Lituânia e na Estónia de forma mais visível, mas em bairros e casas e pessoas por todo o lado, na realidade...

Desejo que 2022 seja um ano de abertura... de continentes, países, regiões, mentes e corações, que na verdade estão todos interligados e são todos interdependentes.
Que todas as crianças possam alçar as suas bandeiras físicas ou imateriais sem medo de serem quem são... Que todos saibamos ver, e amar, ou pelo menos respeitar, a criança que existe em cada um, com todas as suas possibilidades e fragilidades, dado que infelizmente se tende a não prestar a devida atenção ao que não é menos idoso em forma física...
Que todos possamos reconhecer, ouvir e acarinhar a criança que temos dentro e os seus sonhos, que muitas vezes deixamos ser tão distantes daquilo em que nos tornamos, tantas vezes conduzindo-nos a versões de nós mesmos que não nos orgulham agora, tal como não orgulhariam quando, regra geral, cada um se permitia olhar sem preconceitos e sonhar sem limites.
Também os sonhos estão interligados, e há demasiados que dependem dos nossos para terem a possibilidade de se concretizar...
Que não haja sonhos limitados à partida pela pequenez dos nossos olhares, e que a indiferença, a mais mortífera das doenças que continua a assolar a humanidade, geração atrás de geração, seja de uma vez exterminada...

Gratidão a todas as vidas que a cada dia nos mostram que não há limites ou fronteiras... 🙏

Para mais histórias inspiradoras na Europa, l'Hospice général: https://youtu.be/6Y3F9_9kX68
Para mais histórias inspiradoras no Afeganistão, "A ganha-pão": https://youtu.be/DuUQvtgRGPM
See less

quarta-feira, 3 de março de 2021

Minha Gente

Gente, de palavras simples e gestos sinceros.
De pele áspera e jeito duro
De trato suave e simpatia verdadeira,
Que vê na natureza um porto seguro

Gente que trata a terra por tu,
Para quem ganhar nunca foi mais que o resultado de grande esforço,
E vencer na vida nunca foi questão de derrotar alguém.

Gente capaz de trabalhar de sol a sol,
Sem canseira, nem reclamações,
Sem vergonha de sujar as mãos,
De vergar as costas ou dizer palavrões.

Gente, que vive, de pés bem assentes na terra,
Que é sua como a gente é dela,
Que se transforma sem mudar, por muito que as voltas da vida a levem a outro lugar.

Gente que semeia, que cuida e que vê crescer,
Gente que colhe e oferece, sem medo de ficar a perder.
Gente de calo, de raça, de orgulho e de fé,
Que beija como quem abraça e que cai, sempre de pé!

Gente que não pensa o que sente e sente tudo o que vê,
Que limpa as feridas com lágrimas e chora, sem saber porquê.
Gente a quem as alegrias não sobram e as dores não são escassas,
Que enfrenta cada luta com a mesma força e estende a mão nas maiores desgraças.

Gente que abafa gritos com gargalhadas e chora sem soluçar,
Para quem o céu não é limite mesmo que nele fixe o olhar.

Gente de olhos tristes, mas serenos,
Que encara os dias como dons eternos e a noite como berço e confidente.
Gente a quem a vida coloriu de negro, mas que acredita e sabe, porque sente.

Gente que confia, mas vive sem certezas
E se despede de sorriso no olhar,
Porque sabe, mesmo nas grandes tristezas,
Que na vida nada finda, apenas se transforma, como a terra ao luar.

Gente que deixa saudade…
Pelos gestos simples, pelas palavras sinceras,
Pelos sorrisos raros, mas esperançosos,
Pelos olhares silenciosos, que apesar de doloridos sempre falaram de dias melhores.

Nomes que não ficarão na História do mundo,
Mas que em tantas histórias se fazem presente
Gente que faz falta… Gente que me faz falta…
A Nossa Gente… A Minha Gente… Sempre.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

"Não me digas que vai ficar tudo bem, diz-me só que vais estar ao meu lado, independentemente de tudo estar bem ou não"

   

Independentemente de tudo, é necessário que a esperança permaneça… Mas disfarçar a realidade com pozinhos mágicos e unicórnios, não só não é verdade como também é injusto… Não, não vai tudo ficar bem, pelo menos não para já, certamente.... Tal não é verdade na generalidade das situações, menos ainda nesta. Não vamos todos ficar bem, se tivermos em conta que "todos" engloba toda a gente. Não é verdade quando há tantas perdas irreparáveis a cada dia. Não é verdade especialmente quando tantas pessoas morrem sozinhas. Não é verdade quando tantos vivem abandonados à sua sorte, especialmente se agora vivem ainda mais sozinhos do que já viviam antes, a sentir-se ou realmente mais ameaçados que antes. Não é verdade quando mesmo aqueles que não viviam sozinhos até agora começam a sentir-se sós. E muito mais se poderia dizer, sobre outras questões igualmente importantes, mas fiquemos por aqui… Que a saúde é o essencial, mas o pão de cada dia é essencial para que a saúde exista e nem todos temos a garantia dele se ficarmos em casa… e nem todos podem ficar em casa… e nem todos temos sequer uma casa onde ficar… Isto passará, sim, mas nem tudo ficará bem... já...
"Se não soubermos viver juntos, morreremos sozinhos..."
    Não, não vamos todos ficar bem, mas talvez possamos todos ficar melhor. Talvez, se todos soubermos olhar em volta e ver, além do medo, as possibilidades de cada um, e as fragilidades de cada um, e aprendermos, na nossa fragilidade, a usar as nossas possibilidades para aumentar as do outro. Talvez possamos ajudar-nos a minorar as feridas abertas que sempre ficam em muitos e agora são mais evidentes em mais e mais perto, a melhorar o tempo que nos resta juntos neste mundo. Talvez possamos perceber que estar junto não é estar ao molho, e estar separado não é não se ver. Talvez possamos sair disto - porque vamos, enquanto raça, que é só uma, sair disto - mais humanos.

    Pode ser que aprendamos a Ser mais. Que olhemos, finalmente, para dentro e percebamos que o mundo todo cabe lá, e que nós somos parte de "tudo" e "tudo" é parte de nós. Que aprendamos, definitivamente, a respeitar aquilo que somos e reconhecer os espelhos, de outras formas, que encontramos no caminho. Que saibamos honrar a velhice com carinho e protecção, abraçar a idade adulta com entusiasmo e entreajuda, e acolher a infância com responsabilidade e maravilhamento. Que todas as idades se misturem porque nenhum ser humano o é menos em nenhum momento da sua peregrinação. Que todas as barreiras se diluam porque a liberdade é preciosa para todos e as fronteiras igualmente injustas, seja qual for a latitude. Que todas as cores sejam realmente fundidas num arco-íris, porque nenhuma é menos importante e nenhuma é mais valiosa.

    Para que o arco-íris o deixe de ser basta que perca uma cor... E para que exista cor, há que haver sol, mas também chuva. Ignorar um deles é impedir que a vida floresça, no seu ritmo natural, e a natureza tem tanto a ensinar...

    Em cada crise há uma oportunidade, mas é essencial, para que a oportunidade se concretize, que, antes de mais, aprendamos, não a esconder ou assustar com medo, mas a ensinar com Amor, que, para o bem e para o mal, exige que se seja sempre verdadeiro: não, não vamos ficar todos bem, pelo menos para já, mas podemos todos ficar melhor, se todos soubermos agir com honestidade, que exige respeito, que desemboca, necessariamente, em Amor. E vamos ficar ainda melhor do que antes se finalmente esse passar a ser o nosso único fio condutor.

    Por muito que precisemos, às vezes, do conforto de um "vai ficar tudo bem", talvez seja mais verdadeira e reconfortante a garantia de que não ficaremos completamente abandonados perante a certeza de que muita coisa não vai correr tão bem quanto desejamos.

    Saibamos deixar-nos tranquilizar pela convicção de que faremos o nosso melhor. Aparte isso, viver, certos de que, mesmo que à nossa volta o mundo pareça voltar ao que definimos como normal, o nosso normal é o muito mal da grande maioria da população mundial, que muito continuará a não estar bem, e que, ainda que não possamos mudar o mundo de acordo com a nossa definição do que é bom ou não – até porque é isso mesmo que cria muito do que não está bem - a responsabilidade de criar as melhores condições para TODOS, continua a ser de TODOS. E, talvez, em breve, possamos acreditar que não precisamos que tudo fique bem, porque não há finais felizes, mas sim viagens que valem muito a pena, se vividas com Amor, que exige esta noção de que "ninguém é alguém sozinho...," na certeza que cada um é alguém valioso, por si só.

    Esta foi uma Quaresma, para muitos – não todos, porque tomar a parte pelo todo é errado e injusto – vivida em Quarentena, e uma Páscoa, para alguns – os mais privilegiados, não todos, porque tomar a parte pelo todo é errado e injusto – vivida quase exclusivamente em casa. Uma oportunidade para uma reflexão interior, como toda a boa reflexão deve ser, com o mínimo de demonstração exterior, como foi a Páscoa do próprio Jesus, exemplo para quem n'Ele acredita (e não só). É por excelência uma altura de acreditar em impossíveis, de olhar os sinais do mundo como milagres, como momentos de crescimento. Falamos de ressurreição, de renascer, de uma vida que não acaba aqui, em que tudo pode ficar bem…

    Trata-se de fé, aquela que se traduz em gestos, e que, mesmo com esperança de que tudo é possível, tem o poder de nos deixar alerta e conscientes do muito que ainda nos falta fazer enquanto humanidade para que tudo fique, de facto, e para todos, bem…