Porque o mundo é uma enorme manta de retalhos feita das histórias de cada um de nós. Porque cada ser tem um porquê e cada olhar esconde muitos porquês. E porque é de histórias que somos feitos, de recordações que somos moldados, por sonhos que nos guiamos, esta é uma pequena janela sobre os pensamentos sugeridos, os sonhos criados, as respostas encontradas, num conjunto de imagens que falam por si...
sábado, 1 de dezembro de 2012
Anjos da Guarda
Avô e avó são provavelmente das palavras que mais se aproximam do real sentido da expressão “anjo da guarda”.
Quem tem o privilégio de os conhecer e ter por perto tem neles, na grande maioria dos casos e das vezes, e quando as suas capacidades físicas e intelectuais lho permitem (e até mesmo quando não o fazem…), verdadeiros guardiões, daqueles que nos protegem – ou pelo menos tentam - de tudo quanto represente (ou aparente representar) uma ameaça para “os seus meninos”.
Muitas das vezes a coisa é feita de uma forma que irrita mais do que propriamente suscita gratidão, mas sempre com as mais puras, por vezes até ingénuas, intenções.
São os rostos da ternura desmedida, da paciência sem fim, da compreensão exagerada.
Livres da obrigação de educar que atormenta os progenitores, os avós tendem a substituir os sermões pelos mimos, os raspanetes pelas palavras apaziguadoras, os berros pelos sussurros tranquilizantes, as expressões reprovadoras pelos sorrisos cúmplices.
Desculpam-nos tudo (até aquilo que não deviam desculpar!), fingem não ver as nossas falhas, fazem-nos crer que tudo nos é possível, que teremos toda uma vida para fazer tudo aquilo que eles não puderam fazer porque eram “outros tempos”, e cismam em crer que, na verdade, não temos defeitos.
Tal como os anjos da guarda, mas sem asas ou vestes brancas, e - tal como convencionado para os seres alados - muitas das vezes sem que se dê conta ou a devida importância, e mesmo quando as forças lhes faltam, eles não se cansam de nos avisar dos perigos para prevenir os tombos, de nos levantar das quedas, de nos pegar ao colo, de nos enxugar as lágrimas, nem de tratar (da melhor forma que podem) as nossas feridas, mesmo quando a melhor solução para evitar novo tropeço é um raspanete, ou quando a melhor cura é deixar chorar.
Estragam-nos, é um facto, mas quem tiver sido abençoado com tais protectores não deixará de concordar que o maior defeito destas criaturas é nunca estarem ao nosso lado durante tanto tempo quanto gostaríamos… por muito que acreditemos que, na realidade, nunca nos abandonam por inteiro.
É um amor terno, sereno, doce como um bolo caseiro e caloroso como uma boa conversa à lareira… Um laço tão forte quanto profundo e suave...
Recordarei sempre as “histórias de guerra”, repletas de gargalhadas, do único (bis)avô que conheci, e a alegria com que as contou até à véspera da sua partida, comigo agarrada no colo, debatendo-me para não ser “picada” por aquela barba esbranquiçada que só não me criou problemas nessa última noite de vida.
Nunca esquecerei também o repenicado dos inúmeros beijos que teimava a minha bisavó em dar-me de cada vez que nos “despedíamos”, aqueles que não lhe retribuí na manhã em que, com os primeiros sintomas do mal que no-la levaria, ao invés de se preocupar com a sua própria saúde, insistiu que alguém levasse “essa menina ao médico para lhe verem a tosse”. Essa menina era eu, e nunca soube agradecer-lhe como devia toda a preocupação que sempre teve comigo.
Tenho agora mais um dos meus anjos da guarda a velar por mim à distância… Dela ficará para sempre o tremelicar aparentemente frágil da cabecinha branca, a preocupação constante com a alimentação da “pisquita”, e as risadas… aquelas risadas inconfundíveis que enchiam uma sala.
Todas as “despedidas” custam, mesmo quando o “inevitável” aparenta ser a resolução menos dolorosa e mais adequada… Mas todos quantos no nosso coração permanecem, quanto mais não seja em nós, continuam a viver: nas nossas memórias, nos sentimentos que em nós inspiram, nas acções que deles aprendemos a imitar.
Arrastando os passos, com as mãos mais tortas, os beijos mais sonoros ou as barbas mais ásperas, aprendi dos meus avós algumas das maiores lições de vida que até hoje recebi.
Mesmo órfãos precoces ou filhos maltratados pelas dores de uma guerra que lhes roubou a paz, mesmo abandonados por quem deles devia tomar conta ou obrigados a trocar o amor de uma vida pelo cuidado aos seus, todos eles demonstraram, com o seu exemplo, com a sua vida, que vale sempre a pena dar mesmo quando nada sobra, abrir a porta mesmo quando tudo falta, cuidar mesmo quando a dor aperta, sorrir mesmo quando a tristeza mói…
Resta-me a felicidade de poder abraçar ainda uma avó... ainda que, toda a minha vida, esta avó tenha sido para mim "madrinha", o que significa que a palavra mágica continuará a ser usada com carinho, sim, mas apenas em recordações cheias de saudade... E a saudade é um sentimento que também vai apertando o coração tantas vezes... mas não é tristeza… Não. É a certeza de que quem nos faz falta por não estar presente de uma forma visível se mantém bem próximo de uma maneira incompreensível que só o coração pode entender...
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