quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Muxima

"Aqui o céu é mais céu,
o sol é mais sol, o vento mais vento;
A noite é mais noite, o dia é mais dia,
a terra é mais terra, a gente mais gente…
As crianças brincam como crianças que são;
e os mais velhos são respeitados como tal.
E as pessoas vivem, um dia de cada vez,
sem antecipar os bons ou maus momentos
de um amanhã que ainda não é certo..."
(primeiro rabisco em solo africano)

Só agora, um ano depois, começo a conseguir transformar em palavras a enorme marca que África em mim deixou…
Um ano depois, todos os sentimentos que trazia apertados no peito - de tal forma que não conseguia ver as coisas com clareza mas só sentir e agradecer, agradecer… - começam a liberta-se e a ganhar uma forma distinta. Um ano naquela que insistem em chamar de “civilização” tem esses efeitos numa pessoa: começar a racionalizar e a ter necessidade de dar nomes às coisas…
A forma como Deus se nos revela a cada gesto, a cada respiração, não é distinta da forma como o faz neste lado Norte do mundo, mas a forma como as pessoas, no geral, têm a capacidade de o perceber, essa sim é muito diferente, porque constante, porque tão intensa que é impossível não sentir, a todo o momento, aquele abraço caloroso de Pai que nunca nos abandona. E não é só no calor do sol ou nas mãos das pessoas, é em tudo… Natureza e humanidade parecem tão unidas num só sentido que nada está a mais, nada é dispensável.
As palavras não são, no geral, muitas ou especialmente elaboradas. Não é comum pensar-se demasiado, o coração está à beira da boca e se não se manifesta mais vezes é porque não há necessidade de o fazer: os gestos falam por si. Não me lembro de um momento em que ouvisse ou tivesse que dizer a alguém “gosto muito de ti”, porque todo o universo ali conspira para que cada pessoa saiba exactamente o que significa para cada uma das outras sem precisar de escolher meios ou procurar razões. Todos são manos, mamãs, papás ou tios. Todos encaram cada relampejo de vida como parte de si próprios. Em lugar de se "deslumbrarem" com as maravilhas do meio - já habituados a venerar e cuidar com reverência - deixam-se deslumbrar pelas pessoas. Os mais pequenos ficam encantados com a "palidez" do branco e com os nossos narizes "bonitos"… ;) E brincam, sem medo, e riem, alto, e estendem e apertam a mão sem medo de ficarem presos…
As crianças são crianças… São verdadeiramente crianças com toda a sua inocência matreira. E mesmo os maiores, tal como uma criança, não se deixam encantar por aquilo que já conhecem - por muito que o admirem e tirem daí o melhor partido - mas são curiosos e procuram ao máximo aproximar-se do que lhes é estranho, para que se torne – e torna – tão comum como aquilo que sempre conheceram. Não querem compreender tudo - há coisas que simplesmente não se compreendem - apenas buscam sentir, tocar, mostrar afecto das formas mais inesperadas…
“Minha piquena Ana, minha pequena ‘na. Minha pequena Filipa, minha piquena Fi. Minha piquena Ângela, minha piquena A.” =’)
Não dançam para louvar a Deus, louvam a Deus dançando, o que pode parecer a mesma coisa mas não é! E cantam… sem desafinar uma única vez, como se aquelas vozes fossem, desde sempre e para sempre, um canal directo para um mundo superior, sem permitir desvios ou curvas na melodia. E agradecem… sem parar e sem dúvidas, de uma forma natural, porque Deus é uma presença tão natural naquelas vidas que louvá-Lo não tem hora nem lugar. E… são felizes? Se a felicidade for – como eu acredito que é – a forma como cada um olha o mundo e não a realidade em si, são felizes, sim, de uma forma simples e inconsciente como toda a felicidade deve ser.
São pessoas sofridas. A dor que carregam é pesada, os tormentos que os afligem transparecem nos olhares doloridos e baixos que, mesmo nas crianças, se destacam, apesar dos sorrisos rasgados que tantas vezes os acompanham. É quase como que uma característica genética tão comum a tantos africanos com quem tenho tido o privilégio de me cruzar. Nascer africano é viver com um passado de escravatura desumana e subserviência sem sentido, a qual a “nova ordem mundial” parece ter todo o prazer em perpetuar. Mas nascer africano é também ter ritmo no sangue e música na alma, é viver com a Natureza e não nela, é encontrar um familiar em cada ser humano, é olhar o mundo pelo lado certo: aquele que não nos faz esquecer as dores mas nos leva a encará-las como parte natural de uma vida que tem muito para ser agradecido porque é uma dádiva.

Saudade é um sentimento muito português que não se aplica a terras de cor vermelha… Se senti saudades de alguma coisa enquanto lá estive foi das pessoas que ao longo da caminhada foram dando sentido a cada passo. Pessoas com quem gostaria de ter partilhado a experiência mas que, de uma forma ou de outra, se fizeram sempre presentes. De resto, nada daqui faz lá falta, porque o essencial está ali e tão visível que é difícil ignorá-lo. Se sinto falta de Angola… Sente-se falta de alguma coisa que ficou para trás e, da mesma forma que não ficam aqueles que trago sempre comigo, a mamã África não ficou. Veio agarrada a mim, como uma camada extra que se foi formando em torno do coração e que dificilmente se desvanecerá. Uma marca que não é cicatriz, porque nunca foi ferida, mas tão palpável que sinto poder dizer que o músculo que bombeia a vida no meu corpo já não tem a forma comum mas antes adquiriu os contornos daquele continente tão genuinamente indecifrável quanto magicamente verdadeiro.

Se tenciono voltar? Tencionando ou não, sei que um dia voltarei.
Na verdade, acho que nunca de lá saí…