Já foi há um ano que te abracei pela última vez....
Parece que foi ontem e ao mesmo tempo, há tão mais que isso...
A única vez em que não me passou pela cabeça que pudesse ser a última... A única em que não ficaste com lágrimas nos olhos ao ver-me ir embora: "de caminho estás aqui outra vez” ... E assim foi... E ainda mais cedo do que era suposto, e mesmo assim, não foi suficiente....
Isto de as coisas acontecerem quando menos esperamos.... Tanto para bem como para mal, o que quer que seja “bem e mal” …
É certo que nunca te chamei de avó, sempre foste minha madrinha - mãe em Deus... - mas foste mãe de tantas maneiras.... Minha melhor amiga.... Minha companheira…. Minha casa, meu abrigo....
Quanta falta me faz o teu abraço apertado, o teu sorriso constante, a tua gargalhada até às lágrimas, o teu sentido de humor... As tuas histórias, as tuas lengalengas, as tuas saídas sempre engraçadas, as tuas imitações perfeitas…. O som dos teus passos a chegar a casa, da tua máquina de costura; a tua bênção diária, silenciosa, as tuas orações constantes; o cheiro a fumo na cozinha e a cera no chão da sala; o teu aceno à porta sempre que me vias chegar….
Chegar e não te ver não é chegar…
Que falta me faz o teu “muitos beijiiiiinhos”, o teu “boa noiteee!”, e até os teus beijinhos nos ouvidos… Os teus elogios às minhas pernas e às minhas artes; as tuas tranças e o teu cafuné; os teus avisos sobre o cabelo molhado e o sol na cabeça… Até os teus muitos “Não vás!” e “Vai, vai, minha menina, p’ra vires embora depressa” … Os nossos jogos e as tuas novelas…
Sempre foste um sol. Uma guerreira. Uma força da natureza. Sempre soubeste, sem fazer por isso, apanhar-nos desprevenidos com uma gargalhada nos momentos mais inesperados.
Sempre adoraste jogar às cartas, ter a família junta, jogar às cartas com a família, acolher em família quem jogasse às cartas contigo…
Adoravas todas as coisas que crescem. Plantá-las cuida-las, vê-las crescer. Adoravas todos os animais, choravas quando os que cuidavas acabavam por desaparecer...
Se alguém partia, porém, tinhas sempre a mesma tirada: foi na hora dela!
Mesmo que te doesse o mundo, rias e fazias rir…
Tudo o que fizeste foi amar.... Cuidar.... Ver crescer.... Ajudar a crescer...
No teu jardim há laranjas maduras espalhadas pelo chão…
Há laranjeiras regadas com o teu amor…
Há cheiro a flores de todas as cores que nunca deixaste de cuidar
Há todo um mundo de vida com que nos continuas a alimentar…
O meu sol não se apagou, vive em mim, em cada pedacinho que ainda é capaz de enfrentar a dor com um sorriso, em cada pedacinho de mim que é capaz de rir em situações difíceis, em cada pedacinho de mim envolvido em fazer alguém sorrir inesperadamente… E em cada olhar que me devolve o carinho que tinhas por quem te cruzava o caminho, a quem nunca deixavas de saudar com amor, e que hoje vem até mim falar das saudades que também sente de ti…
Afinal tenho uma certeza, independentemente do que haja ou não além daqui: tu vives em mim e isso nunca poderá mudar…. E de cada vez que me cuido é de uma parte de ti que estou a cuidar…