Cresci ouvindo falar do triste episódio que uniu a história da minha família a um dos mais negros capítulos da “grande” História mundial. Na verdade, mais eram os silêncios do que as palavras acerca dessa passagem que tantas marcas profundas deixou em todas as vidas ligadas àquela que, tal como tantas que se perderam de forma absurda, era única. Ao longo do tempo, os pormenores pessoais foram-se juntando aos detalhes da tal História “maior”, que vai transformando nomes em números. Todavia, para aqueles a quem as vozes silenciadas tratavam por “pai”, “mãe”, “filha”..., as cicatrizes invisíveis de guerras vencidas ou perdidas, nunca se resumirão a materiais sumidos ou a territórios recuperados. Para esses, os vazios nunca serão preenchidos, e os nomes daqueles que se perderam jamais serão esquecidos.
Foi atrás de um desses nomes, desaparecidos entre os escombros de uma batalha que nunca foi de nenhum dos que nela pereceram, que parti rumo a Richebourg, Norte de França, em busca do cemitério militar português. O meu trisavô, pai da minha bisavó – uma das minhas mães -, teria sido algures enterrado naquele espaço que sempre imaginei como um enorme descampado. O mesmo descampado em que desenhara, na minha mente, as trincheiras onde se refugiara aquele homem, levado para o outro mundo pela vontade de conhecer quem a História haveria de definir como “o inimigo”. Rezam as pequenas histórias, as dos que com ele compartilharam vida e morte, que Manuel Maria Martins faleceu ao arriscar levantar-se do seu esconderijo pronunciando aquelas que seriam as suas últimas: “Eu quero ver o inimigo!” Se o viu ou não, ninguém o sabe, o que é certo é que não mais o viram, nem com vida nem sem ela, nenhuma das três filhas pequenas que deixara, com a mãe em pranto, num recanto de Portugal que certamente nunca figurará dos livros da História que o arrancou à terra e à família que com ele tombou naquele campo longínquo do norte de França. Constava que o fatídico acontecimento tivera lugar durante a batalha de la Lys, uma das mais mortíferas para o despreparado e mal apetrechado Corpo Expedicionário Português que, à época, se uniu às potências ocidentais numa guerra de interesses. Os dados oficiais talvez o contrariem mas, independentemente de datas e espaços concretos, o que é certo é que os restos mortais do pai que tanta falta fez à minha (bis)avó, estão entre as demasiadas lápides que em Neuve-Chapelle, Richebourg, recordam aqueles que morreram em nome de uma pátria.
Chegar ali não foi fácil. Estando há quase um ano no país, já estava mais que habituada aos transportes públicos franceses, mas ainda assim, entre comboios que se atrasam e autocarros que não existem mais, foi graças à boa vontade de um casal – cujo elemento masculino se chamava José e era descendente de portugueses – que consegui chegar em tempo útil ao local que hoje em dia é comummente conhecido por “la bombe”. Ao aproximar-me do floreado negro que desenha o portão do cemitério, não podia deixar de me sentir ansiosa... Mesmo tendo na mão as coordenadas exactas da sua localização, não me abandonava o receio de poder não encontrá-lo. Pior do que perder a jornada, pesava-me a responsabilidade de ser a única descendente directa a ter chegado até ali, e voltar, depois de tão longa viagem, sem achar o nome que procurava. Fui quase directa ao sítio certo, e ali estava, gravado em pedra, já gasta pelos rigorosos Invernos do norte que ainda assim não o apagaram: Manuel Maria Martins.
Não é possível descrever o que senti no momento em que a minha mão tocou aquela lápide naquele primeiro dia gelado de primavera... Ali estava o que ainda restasse de físico daquela história de infância que quase se transformara em lenda, com tantos contornos de luz quanto de sombra... O meu avô desconhecido, o pai cuja ausência a tantos silêncios votou a minha avó querida... O túmulo que ela nunca pudera visitar, na terra que durante tantos anos a privara também do marido... Quantas vezes aquelas filhas e aquela mulher teriam chorado a falta daquele homem, sem um espaço físico a que se agarrar para se sentirem mais próximas dele...
Escrevi nesse dia, no meu diário de bordo: “Ainda me vêm as lágrimas aos olhos só de pensar... Apeteceu-me telefonar para casa naquele momento mas não creio que pudesse dizer o que quer que fosse... E estava grata, imensamente grata àquele casal que, não me conhecendo de lugar nenhum, me levou até onde precisava de chegar...”
Não era a primeira vez que o faziam. Segundo me confidenciaram, é já habitual encontrarem e guiarem pessoas até àquela zona. Ali perto está o cemitério dos ingleses, que volta e meia visitam o local. Mesmo ao lado, o cemitério dos indianos, enviados para aquela terra longínqua para defender interesses contrários aos que certamente seriam os seus... Para certamente não mais serem procurados pelos familiares... que certamente não saberão sequer em que parte do mundo foram os seus corpos enterrados... É deveras impressionante: olhar para aqueles mares de túmulos, quais fileiras militares... Todos perderam a vida num combate tão sem sentido quanto qualquer outro... Tanta vida ceifada em nome de... De quê, afinal?... Ao fundo, um monumento, em homenagem aos combatentes que entre 1916 e 18 ali deixaram os seus sonhos e pesadelos, as suas esperanças e desilusões. Do outro lado da estrada, uma capelinha, onde todos os anos, em Maio, se celebra a memória dos falecidos aos pés de Nossa Senhora de Fátima. A romaria, consta, reúne muitos portugueses e luso-descendentes. A memória dos que partiram não se desvanece, por muito longínqua, por mais bem sepultada que seja. E é talvez mais persistente quanto maior a distância que a ditou, quanto menos as memórias que foram permitidas guardar àqueles que as abraçaram como tesouros.
Algures no Norte de França há florestas escuras e campos abertos, onde os nossos antepassados correram as vidas e enterraram os medos. Os segredos que guardam são quase palpáveis, os murmúrios que silenciaram são provavelmente mais audíveis hoje do que quando foram pronunciados... O verdadeiro inimigo, esse permanece por aí à espreita, mas não tem forma humana nem armas apontadas ao coração, é um que se aloja onde a recordação falha e a emoção esmorece... Dá pelo nome de esquecimento.
in "Soldados Cambrenses", de Adolfo Coutinho, 3a edição (2016)

