Porque o mundo é uma enorme manta de retalhos feita das histórias de cada um de nós. Porque cada ser tem um porquê e cada olhar esconde muitos porquês. E porque é de histórias que somos feitos, de recordações que somos moldados, por sonhos que nos guiamos, esta é uma pequena janela sobre os pensamentos sugeridos, os sonhos criados, as respostas encontradas, num conjunto de imagens que falam por si...
sábado, 1 de dezembro de 2012
Anjos da Guarda
Avô e avó são provavelmente das palavras que mais se aproximam do real sentido da expressão “anjo da guarda”.
Quem tem o privilégio de os conhecer e ter por perto tem neles, na grande maioria dos casos e das vezes, e quando as suas capacidades físicas e intelectuais lho permitem (e até mesmo quando não o fazem…), verdadeiros guardiões, daqueles que nos protegem – ou pelo menos tentam - de tudo quanto represente (ou aparente representar) uma ameaça para “os seus meninos”.
Muitas das vezes a coisa é feita de uma forma que irrita mais do que propriamente suscita gratidão, mas sempre com as mais puras, por vezes até ingénuas, intenções.
São os rostos da ternura desmedida, da paciência sem fim, da compreensão exagerada.
Livres da obrigação de educar que atormenta os progenitores, os avós tendem a substituir os sermões pelos mimos, os raspanetes pelas palavras apaziguadoras, os berros pelos sussurros tranquilizantes, as expressões reprovadoras pelos sorrisos cúmplices.
Desculpam-nos tudo (até aquilo que não deviam desculpar!), fingem não ver as nossas falhas, fazem-nos crer que tudo nos é possível, que teremos toda uma vida para fazer tudo aquilo que eles não puderam fazer porque eram “outros tempos”, e cismam em crer que, na verdade, não temos defeitos.
Tal como os anjos da guarda, mas sem asas ou vestes brancas, e - tal como convencionado para os seres alados - muitas das vezes sem que se dê conta ou a devida importância, e mesmo quando as forças lhes faltam, eles não se cansam de nos avisar dos perigos para prevenir os tombos, de nos levantar das quedas, de nos pegar ao colo, de nos enxugar as lágrimas, nem de tratar (da melhor forma que podem) as nossas feridas, mesmo quando a melhor solução para evitar novo tropeço é um raspanete, ou quando a melhor cura é deixar chorar.
Estragam-nos, é um facto, mas quem tiver sido abençoado com tais protectores não deixará de concordar que o maior defeito destas criaturas é nunca estarem ao nosso lado durante tanto tempo quanto gostaríamos… por muito que acreditemos que, na realidade, nunca nos abandonam por inteiro.
É um amor terno, sereno, doce como um bolo caseiro e caloroso como uma boa conversa à lareira… Um laço tão forte quanto profundo e suave...
Recordarei sempre as “histórias de guerra”, repletas de gargalhadas, do único (bis)avô que conheci, e a alegria com que as contou até à véspera da sua partida, comigo agarrada no colo, debatendo-me para não ser “picada” por aquela barba esbranquiçada que só não me criou problemas nessa última noite de vida.
Nunca esquecerei também o repenicado dos inúmeros beijos que teimava a minha bisavó em dar-me de cada vez que nos “despedíamos”, aqueles que não lhe retribuí na manhã em que, com os primeiros sintomas do mal que no-la levaria, ao invés de se preocupar com a sua própria saúde, insistiu que alguém levasse “essa menina ao médico para lhe verem a tosse”. Essa menina era eu, e nunca soube agradecer-lhe como devia toda a preocupação que sempre teve comigo.
Tenho agora mais um dos meus anjos da guarda a velar por mim à distância… Dela ficará para sempre o tremelicar aparentemente frágil da cabecinha branca, a preocupação constante com a alimentação da “pisquita”, e as risadas… aquelas risadas inconfundíveis que enchiam uma sala.
Todas as “despedidas” custam, mesmo quando o “inevitável” aparenta ser a resolução menos dolorosa e mais adequada… Mas todos quantos no nosso coração permanecem, quanto mais não seja em nós, continuam a viver: nas nossas memórias, nos sentimentos que em nós inspiram, nas acções que deles aprendemos a imitar.
Arrastando os passos, com as mãos mais tortas, os beijos mais sonoros ou as barbas mais ásperas, aprendi dos meus avós algumas das maiores lições de vida que até hoje recebi.
Mesmo órfãos precoces ou filhos maltratados pelas dores de uma guerra que lhes roubou a paz, mesmo abandonados por quem deles devia tomar conta ou obrigados a trocar o amor de uma vida pelo cuidado aos seus, todos eles demonstraram, com o seu exemplo, com a sua vida, que vale sempre a pena dar mesmo quando nada sobra, abrir a porta mesmo quando tudo falta, cuidar mesmo quando a dor aperta, sorrir mesmo quando a tristeza mói…
Resta-me a felicidade de poder abraçar ainda uma avó... ainda que, toda a minha vida, esta avó tenha sido para mim "madrinha", o que significa que a palavra mágica continuará a ser usada com carinho, sim, mas apenas em recordações cheias de saudade... E a saudade é um sentimento que também vai apertando o coração tantas vezes... mas não é tristeza… Não. É a certeza de que quem nos faz falta por não estar presente de uma forma visível se mantém bem próximo de uma maneira incompreensível que só o coração pode entender...
sábado, 14 de julho de 2012
John
“I don’t need to be the most special girl in the world… All I ever wanted was to be the one that turns your world into a special place…”
Her words were echoing in his mind since she turned away not to come back anymore.
She never said goodbye, choosing to hug him quickly instead.
He never saw the tears he knew she was trying to hide from him. Meanwhile, she whispered the words he wouldn’t manage to decode until a few minutes later. The same words that would pulse in his chest ever since.
Sometimes he could still feel her back in his arms, like in that spring morning when the perfume of her hair had inebriated him for the last time… He could still feel it dancing through his fingers to the rhythm of the soft coastal breeze.
There were times when, embraced by solitude, he felt like he could actually turn back time and go back to the moment when everything changed.
He would have asked her to stay. He would have told her how much he needed her by his side; he would have whispered in her hear that everything he would have ever wanted to tell her was no more than a “see you later”… But now it was just too late.
He had always been too much of a coward to ever have the courage to talk about his own feelings. He had always preferred to tell stories, other peoples’ stories, waiting for that someone that would understand the only one he was talking about was himself…
It wasn’t premeditated. Ever since he could remember he would always rather stay unnoticed. He had always avoided leading roles, and now he had finally realized he had done it with his own story, with his own life, there was really nothing he could do about it...
She understood him. Sometimes he even thought she new more about him than he had ever allowed himself to discover. He had wanted to tell her that but he always trusted his actions would be clear enough and would silently tell her the secret he had never put into words.
That morning, at Sydney’s harbor, for the first time he could recall, words had betrayed him… The moment she softly whispered in the wind, he had suddenly turned mute and couldn’t find a way to make a single sound even as he watched her climb aboard the ship that would lead her to her dreams… the very ones that didn’t include him, at least…
As he watched her move away from him, he had felt as if he was in a dream himself. Suddenly, the world was moving in slow motion, as if life was giving him a last chance to change the course of his destiny, one that seemed so irremediably drawn.
By then, it seemed everything was possible again; he just had to do something.
He imagined himself running towards her, grabbing her hand, pulling her back in his arms and stealing from her lips the one kiss he would never give her.
He only realized it was just too late when, through the water curtain that blurred his eyes, he tried to find her in the crowd and wasn’t able to see her anymore.
Focusing all his attention in the ship that would take her away from him forever, he stood still, as the world eroded into a diffuse blue mist.
Only when the iron giant finally lifted the heavy anchor that blacked his feelings, his lips managed to write the words his mind had never let him process and his heart had hidden from itself for far too long… And he prayed, he prayed with all the strength he had left and as he had never done before, so that the soft wind that blew his tears away would, somehow, make it reach the only one who had ever given sense to them…
By himself, in the blurry shadow of his heart, Johnathan Mayfield, the man that inspired so many to live their own love glories, was for the first time saying “I love you…” for no one to hear…
Her words were echoing in his mind since she turned away not to come back anymore.
She never said goodbye, choosing to hug him quickly instead.
He never saw the tears he knew she was trying to hide from him. Meanwhile, she whispered the words he wouldn’t manage to decode until a few minutes later. The same words that would pulse in his chest ever since.
Sometimes he could still feel her back in his arms, like in that spring morning when the perfume of her hair had inebriated him for the last time… He could still feel it dancing through his fingers to the rhythm of the soft coastal breeze.
There were times when, embraced by solitude, he felt like he could actually turn back time and go back to the moment when everything changed.
He would have asked her to stay. He would have told her how much he needed her by his side; he would have whispered in her hear that everything he would have ever wanted to tell her was no more than a “see you later”… But now it was just too late.
He had always been too much of a coward to ever have the courage to talk about his own feelings. He had always preferred to tell stories, other peoples’ stories, waiting for that someone that would understand the only one he was talking about was himself…
It wasn’t premeditated. Ever since he could remember he would always rather stay unnoticed. He had always avoided leading roles, and now he had finally realized he had done it with his own story, with his own life, there was really nothing he could do about it...
She understood him. Sometimes he even thought she new more about him than he had ever allowed himself to discover. He had wanted to tell her that but he always trusted his actions would be clear enough and would silently tell her the secret he had never put into words.
That morning, at Sydney’s harbor, for the first time he could recall, words had betrayed him… The moment she softly whispered in the wind, he had suddenly turned mute and couldn’t find a way to make a single sound even as he watched her climb aboard the ship that would lead her to her dreams… the very ones that didn’t include him, at least…
As he watched her move away from him, he had felt as if he was in a dream himself. Suddenly, the world was moving in slow motion, as if life was giving him a last chance to change the course of his destiny, one that seemed so irremediably drawn.
By then, it seemed everything was possible again; he just had to do something.
He imagined himself running towards her, grabbing her hand, pulling her back in his arms and stealing from her lips the one kiss he would never give her.
He only realized it was just too late when, through the water curtain that blurred his eyes, he tried to find her in the crowd and wasn’t able to see her anymore.
Focusing all his attention in the ship that would take her away from him forever, he stood still, as the world eroded into a diffuse blue mist.
Only when the iron giant finally lifted the heavy anchor that blacked his feelings, his lips managed to write the words his mind had never let him process and his heart had hidden from itself for far too long… And he prayed, he prayed with all the strength he had left and as he had never done before, so that the soft wind that blew his tears away would, somehow, make it reach the only one who had ever given sense to them…
By himself, in the blurry shadow of his heart, Johnathan Mayfield, the man that inspired so many to live their own love glories, was for the first time saying “I love you…” for no one to hear…
domingo, 3 de junho de 2012
Porque sim!
“Sede como crianças…”
Com a INOCÊNCIA de quem corre sem medo de cair, canta sem medo de desafinar e brinca sem medo do ridículo;
Com a CONFIANÇA de quem experimenta sem temer o sabor, de quem oferece sem esperar receber, de quem acredita sem medo de se desiludir;
Com a SIMPLICIDADE de quem abraça presente e futuro, aceitando o passado como parte de quem é e não como condição do que há-de ser, e sabe que monstros e heróis não se distinguem senão pelas suas acções;
Com a VERDADE de quem ri com a alma inteira e chora sem vergonha porque sabe, sem saber, que a doçura de um sorriso é suficiente para cativar e que o sal da vida está muitas vezes no mar que brota do olhar;
Com o ENTUSIASMO de quem é parte de todos os que fazem parte de si mas não pertence a ninguém, e ama de coração livre, deixando-o bater descompassado sem medo de perder o ar, porque sem saber sabe que os momentos que marcam uma vida são aqueles que nos tiram a respiração…
Com a ALEGRIA de quem VIVE como se todos os dias fossem seus, porque na verdade são, sem saber que a vida não é um conto de fadas mas aprendendo, a cada dia e sem pressas, que cada história é única e cabe a cada um de nós escrever a sua… De quem voa com o vento, canta com as estrelas, dança com a chuva, trepa árvores, salta poças e faz bolos de lama, só PORQUE SIM!
E porque não? ;)
Com a INOCÊNCIA de quem corre sem medo de cair, canta sem medo de desafinar e brinca sem medo do ridículo;
Com a CONFIANÇA de quem experimenta sem temer o sabor, de quem oferece sem esperar receber, de quem acredita sem medo de se desiludir;
Com a SIMPLICIDADE de quem abraça presente e futuro, aceitando o passado como parte de quem é e não como condição do que há-de ser, e sabe que monstros e heróis não se distinguem senão pelas suas acções;
Com a VERDADE de quem ri com a alma inteira e chora sem vergonha porque sabe, sem saber, que a doçura de um sorriso é suficiente para cativar e que o sal da vida está muitas vezes no mar que brota do olhar;
Com o ENTUSIASMO de quem é parte de todos os que fazem parte de si mas não pertence a ninguém, e ama de coração livre, deixando-o bater descompassado sem medo de perder o ar, porque sem saber sabe que os momentos que marcam uma vida são aqueles que nos tiram a respiração…
Com a ALEGRIA de quem VIVE como se todos os dias fossem seus, porque na verdade são, sem saber que a vida não é um conto de fadas mas aprendendo, a cada dia e sem pressas, que cada história é única e cabe a cada um de nós escrever a sua… De quem voa com o vento, canta com as estrelas, dança com a chuva, trepa árvores, salta poças e faz bolos de lama, só PORQUE SIM!
E porque não? ;)
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Indira
Esperou que ele chegasse, mas ele não voltou…
Há anos que era assim. Todos os dias ao final do dia ela caminhava sob o sol flamejante de Haridwar, dirigindo-se ao único lugar que a fazia sentir-se próxima da sua esperança mais bem guardada. Havia anos que aquele era o seu rito diário, levando-a sempre de volta ao local onde o vira pela última vez.
Fizera uma promessa a si mesma: nunca deixaria de o procurar e, acontecesse o que acontecesse, sabia que havia de encontrá-lo, fosse onde fosse, quando tivesse que ser…
Na cidade já todos a conheciam como louca. Dos brâmanes às crianças da lixeira - as mesmas que durante tanto tempo alimentara às escondidas - já ninguém tentava sequer dissuadi-la da sua demanda. Chamavam-na unmaadi, a insana, e já ninguém – senão os turistas que por ali passavam – estranhava a sua atitude. Mas eles não sabiam de nada… Eles estavam só de passagem, era ela quem vivia todos os dias com aquela dor que lhe apertava o coração com toda a força a cada nova respiração. Já não tinha noção dos dias ou das horas, a sua única referência era o sol, que a guiava sempre até ao mesmo lugar.
Era um dia de calor abafado, como a maioria dos dias de Verão em Haridwar. Mas o ar daquele dia tinha um peso diferente. Aproximava-se o pôr-do-sol e o normal era que os mosquitos começassem a incomodar, com o zumbido característico que levava os estrangeiros a evitar os passeios àquela hora do dia. A ela já há muito que não fazia diferença. Esses detalhes haviam deixado de incomodar Indira havia muito tempo, mas não podia deixar de notar que aquele dia era diferente, e cada sinal da Terra era mais um reluzir de esperança no seu caminhar adormecido.
Como todos os dias, levava o seu melhor sari, e um véu que lhe cobria a cabeça, sempre levantada, os olhos perscrutando cada pormenor das ruas sempre atribuladas da sua cidade.
Havia 10 anos, tal como naquele dia, uma brisa suave fazia sentir-se por entre a confusão.
Indira lembrava-se de cada passo daquela jornada que a levara até às margens do Ganges. Era ali que devia ter encontrado o seu filho, era ali que esperava encontrá-lo a cada novo dia de renovada angústia… Havia quem afirmasse tê-lo visto afogar-se nas águas do rio. Havia quem dissesse que o tinha visto ser levado por um qualquer homem sombra que ninguém sabia descrever. Havia quem jurasse a pés juntos tê-lo visto ser esmagado pela multidão em fuga durante mais um confronto cujo fundamento se cansara de tentar perceber.
Indira preferira não acreditar em nenhuma daquelas histórias. A sua criança amada não podia ter sido levada daquela forma… Não… Era uma luz demasiado brilhante para ser apagada com tamanha brutalidade. Já lhe bastava ter perdido o amor de uma vida às mãos do próprio pai, pelo simples facto de ser um “intocável”, e de com ela ter gerado a criatura mais bela que alguma vez pudera imaginar. A loucura dos homens não lhe poderia roubar mais uma parte de si… Não ia admitir que as divisões absurdas de uma sociedade em que não pedira para nascer lhe dilacerassem a alma mais uma vez… Ia continuar a procurá-lo, nas águas do Ganges como nos caminhos de uma cidade que sempre lhe parecera demasiado grande mas que desde aquele dia se lhe afiguravam de uma enormidade inconcebível.
Naquele fim de dia, que tanto se assemelhava àquele que mudara para sempre a direcção dos seus passos, anos atrás, Indira voltou, como todos os dias, a entrar nas águas sagradas e a esperar, olhando o reflexo do sol poente nas rugas dançantes do manto líquido.
As palavras do filho voltavam-lhe sempre à memória:
- Ammi, quando for grande vou até ao fundo do Ganges! Se lá é o único sítio onde todos são iguais, só pode ser lá que moram os deuses, e eu tenho que falar com eles.
- E que dirias tu a um deus, meu filho?
- Ia pedir-lhes para virem cá acima, a ver se as pessoas começam a ser iguais cá fora também!
Todos os dias Indira olhava as águas do Ganges, imaginando que, algures lá em baixo, o seu pequeno anjo andava de porta em porta em busca de um deus que mudasse o seu mundo. E todos os dias, até ver o sol mergulhar no seu horizonte disforme, ela acreditava que, mais cedo ou mais tarde, ele havia de de lhe voltar aos braços, de olhos brilhantes e sorriso rasgado, enchendo-lhe a vida de alegria, como sempre fizera…
Um dia, com deuses ou sem eles, ela provaria ao mundo que a única força necessária para mudá-lo era aquele amor que, todos os dias, a reconduzia àquele mesmo lugar onde, ao pôr-do-sol, a magia da natureza lhe permitia voltar a sentir bem perto aquele que esperava com a fé inabalável que só um coração de mãe guarda…
Esperou que ele chegasse, mas, enquanto viveu, não o viu voltar…
sábado, 14 de abril de 2012
NOW

We rational beings are so called because we're able to think. That’s pretty much what defines us as humans. However, we tend to think too much, and that may be a hell of a problem since while we’re thinking we’re not acting or, at least, most of the times, not doing one of those things properly. Things get worse when we start thinking about time itself, for it is one of the few things we can’t control nor manipulate in an effective way, although some may argue it is our mind that gives actual existence to it…
We spend most of our precious time thinking about what we didn’t do in the past, what we won’t do in the future, what we didn’t have before, what we won’t get next… And, as if that wasn’t enough of a problem, we just keep on forgetting about the present, which, as the name itself says, is basically the greatest gift we’ll ever have, and, as a matter of fact, the only thing we really own.
If you’re reading this it means you’re breathing, and, well… You’ve probably been breathing for the last few decades but how many times have you been grateful for that? It basically means you’re alive and that is actually the only necessary condition to live life in all its fullness, and man… that’s pretty much what most of us strive for, right?
If you’re reading this, it means you’re able to see, and that you’re living the dream of a lifetime of the ones that will never watch a sunset, look into their loved ones’ eyes and know their thoughts just by doing so, nor see a shooting star no matter how long they wait for it...
If you’re also able to hear and speak, you may consider yourself more fortunate than many that will never be capable of saying “I love you”, nor “I miss you”, nor “I’m sorry”... Not out loud at least... You might even think you’re luckier than those who will never listen to their favorite song for they’ll probably never have one...
If you’re able to focus your attention on the bullshit I’m writing and have the choice not to, you should be grateful, for there’s a great bunch of people that would give anything to be able to make a choice as simple as that, and so many others that don’t even notice they’re not able to do so…
If you have both legs and arms and you can move them as you wish, you are living the miracle of the ones that will not be able to dance at their wedding as they’ve always dreamed of nor hug their children as “every other parent does”…
If you don’t, but you do have air in your lungs and will in your heart, you’ve still got everything you need to do whatever you set up to , and NOW is the only moment you can be certain you’ll have to make that happen.
Right now you can do anything you want to. You may need to add a little creativity, but that only makes it all even worthier, right?!
If you want to make a difference, you’d better start NOW because this is the only moment you can be sure you’ll be able to do it, for later may be just too late… And if you don’t make the difference you can make in the world, no one will ever do it the way you would have and that difference may be missed forever.
“So that each day counts!”
("Jack")
sábado, 31 de março de 2012
Anya

Estava perdida. Perdida e irremediavelmente sozinha, numa terra que não reconhecia mas que todos os sinais insistiam em relembrar-lhe que era a sua.
Há semanas que vagueava sem destino por entre os escombros de um mundo que há já muito não era o seu. Perdera-se dos seus mas, acima de tudo, de si mesma.
Sentia ter no lugar do coração uma qualquer estrutura de barro vazia. Sentia como se ele tivesse ardido por dentro, mantendo por fora a aparência de que tudo estava exactamente igual, como desde que se lembrava soubera fazer com o seu semblante.
Aqueles últimos meses tinham sido tão felizes… Amara como nunca até então e, pela primeira vez na vida, sentira-se amada da mesma forma. Encontrara noutro ser o espelho de si própria, reflectido num olhar penetrante que a deixara sem fôlego desde o primeiro momento. Deixara-se apaixonar por promessas silenciosas, por sentimentos partilhados, mas, mais que tudo o resto, por sonhos em comum. Ele era perfeito… Até perfeito demais para ela, sabia-o, e por sabe-lo sabia que, finalmente, o encontrara.
Nunca mais o vira desde que os bombardeamentos haviam recomeçado. A cidade desfizera-se em cinzas e com ela o seu coração. Já quase não o sentia bater. Era como se, de facto, se tivesse transformado num mero músculo, pulsando como uma máquina, porque assim tinha de ser e não porque fizesse algum sentido.
Toda a vida aprendera a lidar com as dificuldades. Desde sempre soubera o que era a dor da perda, e foi-se sentido tornar mais forte à medida que cada um daqueles que amava lhe era retirado como se por uma força maior que o mundo. Mas agora já não sabia sequer se acreditava em Alá... Sempre estivera certa de que havia algo maior que a ia guiando, protegendo, consolando, mas, agora que perdera o único amor pelo qual tivera que lutar, já não sabia no que havia de acreditar…
Ele era israelita. Vivia do outro lado da fronteira e ali tinha a sua família. Abandonara tudo por ela… Havia-se alistado nas forças militares para lutar por uma causa que desde sempre fora sua, mas percebera que aquela guerra não fazia sentido assim que a conhecera. Salvara-lhe a vida, de todas as formas possíveis e imagináveis, mas Anya abrira mão dele.
Amava-o demasiado para suportar o sofrimento que lhe causava vê-lo em constante angústia, dividido entre o que sentia por ela e aquilo que toda a sua vida acreditara ser o seu dever, aquilo que o mundo que era o dele lhe exigia que fizesse. Ele estava disposto a tudo por ela, mas ela, em nome desse mesmo amor, não era capaz de fazer algo que o fizesse sentir perdido. Não a ele... Queria ser o brilho de alegria daquele olhar que a enchera de esperança, e não a causa da sua tristeza, do seu desalento, das suas dúvidas. Queria estar ao lado dele sempre que ele precisasse, e não ter que fugir, que esconder o que de mais belo alguma vez sentira ao longo de toda uma existência. Queria vê-lo feliz, ou, se não o visse, pelo menos saber que ele estava em paz, consigo próprio e com o que quer que a sua fé lhe ditava ser o correcto.
Anya era palestiniana, e sempre vira o lado de lá do muro como o inimigo, o mal, o cancro que devastava a sua terra. Nos últimos tempos aprendera a olhá-los com complacência. Ele ensinara-lhe isso... Mas agora de nada lhe valia, aliás, começara a odiar-se por sequer pensar em amar a quem a afastara de tudo o que alguma vez dera sentido à sua vida.
Decidira esquecer que alguma vez o conhecera, apagá-lo para sempre da sua memória, e, para sua surpresa, de certa forma, parecia tê-lo conseguido, mas era como se tudo o resto se tivesse esvaido. Era como se tivesse tomado uma qualquer poção mágica que não lhe apagara as memórias mas lhe roubara os sentimentos. O que quer que restasse agora dentro do seu coração, não era algo de que se orgulhasse. Era como se tudo o que de bom guardava em si se tivesse concentrado no lugar que ele ocupava, e agora que aquilo que sentia por ele se tinha desvanecido, ou de alguma forma camuflado, custava-lhe encontrar em si aquilo a que, cada vez mais, lhe custava chamar coração.
Quando o tinha por perto tudo fazia sentido, todas as peças encaixavam na perfeição. Agora... era como se tivesse perdido o fio condutor da sua vida e, por muito bem que conhecesse as entranhas do sofrimento, o facto de nada sentir assustava-a mais que qualquer outra coisa.
Não sabia sequer se ele estava vivo ou morto... E, de repente, o vazio...
Naquela tarde, enquanto vagueava pelas ruas de uma Rafah desfeita, encontrou a esperança nas mãos de uma mulher que se alimentava de mágoas.
Fatima era curandeira, diziam que tinha mãos abençoadas e que com elas conseguia fazer desaparecer qualquer dor, física ou não. Desde sempre fora uma grande amiga e conselheira da sua avó, a única família que ainda lhe restava mas de cujo paradeiro nada sabia, e, agora que não a tinha junto a si, nem qualquer outra pessoa com quem pudesse partilhar a sua mágoa, ao encontrar aquele rosto que lhe era familiar, Anya permitiu-se deixar que o que quer que fosse que a queimava por dentro se fizesse notar no exterior do seu ser.
Chorou como já não fazia há anos, desde que o seu pai morrera, vítima de um ataque aéreo como aquele que, meses mais tarde, lhe levaria a mãe e o irmão. Já não se lembrava do sabor salgado das lágrimas, da sua textura suave e do seu toque quente… Com o coração como estava, imaginara que mesmo as lágrimas que algum dia viesse a chorar só pudessem ser geladas, ou enegrecidas pela cinza… Mas não, eram iguais às de qualquer outra pessoa, às de todos aqueles que vira em pranto ao longo de tantos anos...
Fatima não disse nada, foi como se lhe lesse os pensamentos. Ao ver a jovem abeirar-se, apenas se aproximou e envolveu-lhe os ombros com os seus braços. Ficaram assim durante aquilo que a Anya pareceu toda uma infância perdida no tempo.
Enquanto o sol descia no horizonte, sentiu o ar regressar aos seus pulmões, e, fitando o mundo que a levava de volta ao seu sofrimento, perguntou num sussurro:
- Algum dia terei o meu coração de volta?
Fatima continuou em silêncio, acompanhando a respiração de Anya até que o seu ritmo se tornou brando. Pegou-lhe nas mãos com o mesmo cuidado com que se toca uma bolha de sabão colorida, e, com uma ternura que lhe encheu a alma, falou-lhe no mesmo tom:
- Não há nenhum fogo que não dê luz, e se a tua alma está em chamas, não permitas que te queime, mas antes que te aqueça o coração. Das cinzas também pode brotar a vida, minha querida. A tua tarefa é aproveitar as suas propriedades, plantar a boa semente, e dar-lhe espaço e tempo para crescer. Nenhuma luz foi criada para se esconder. Não deixes que a dor te apague, e terás oportunidade de renascer... Sempre.
As palavras e a voz suave daquela mulher que lhe aparecera como se de um anjo se tratasse, confortaram-lhe a alma e fizeram-na sentir que podia respirar de novo, preenchendo-a de uma paz que há já muito desconhecia.
Através da janela, cravada na única parede parcialmente resistente de uma casa reduzida a escombros, qual bastião indestrutível da força inabalável de um povo votado à ilegalidade na sua própria terra, Anya olhou o sol desaparecendo no horizonte, e lembrou-se daquilo que uma noite ouvira do pai que tentava acalmar o irmão mais novo. A escuridão absoluta das noites de Rafah podia ser aterradora, mas o pai sempre soubera encontrar as palavras certas para os fazer sentir seguros:
- Sempre que o sol desaparece no teu horizonte, há muitos corações que, no silêncio, agradecem aos céus pelo novo dia que nasce.
Anya sorriu de novo, sentindo o bater sereno do seu coração, e percebendo aquilo que durante demasiado tempo se lhe fizera difícil compreender: que ele já há muito não lhe pertencia, mas era, antes, uma parte daqueles a quem amava e que acompanharia para onde quer que seguissem...
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Once Upon a Time...
... somewhere in a forgotten country, two little children were in mourning for their young mother's death. She had passed away two weeks before, but still her little daughter, Aluna, could not sleep at night not only because of the nightmares that haunted her since that day, but also because of the continuous screams of people all around them. There had been a natural catastrophe and the little help that had arrived was now reduced to a single person – a missionary that insisted in staying there in spite of all political pressures. Michael, her big brother, was now responsible for Aluna, trying his best to keep her alive and living. Every day he would find a way to feed her, and every single night he would tell her a story so she could fall asleep peacefully. Their mum had died from hunger, as many of the ones who were there would be dying soon.
Then, one day, out of nowhere, everybody started to celebrate. Someone had told them that mankind was just about to conquer the moon. Little Aluna couldn't understand what was there to be so happy about, so her brother tried to make it easier for her:
- Do you remember what mum used to tell us about the moon?
- That it is a big creamy cheese waiting for Mr. Mouse to come and eat it?
- Exactly!
- But why are they so happy? Are they going to kill Mr. Mouse?!
- No Aluna, they think they're going to bring the moon here so we can all eat it.
- Oh… Do you think that if I ask them to bring me something else they will?
- Like what?
- I want them to bring mum back!
Michael was astonished for a while, but then he found the right words:
- My little angel, they can't do that… And you want to know why? - as Aluna nodded, Michael held his little sister in his arms - Because mum's a star and no one can touch a star.
- Why?
- Because a star is something too powerful and too pure for a man to touch it.
Just like love… The kind of love that brings mum back to us every time we think of her…
Tears started to fall from Michael's eyes as he spoke. Aluna seemed to be too concentrated on the sky upon both of them to even notice it. Then, after a moment of silence, she suddenly added:
- Well, I don't like cheese…
- What?
- I don't think I like cheese, Mum said it stinks!
Michael smiled at his sister's innocence.
- So, what would you order, miss?
- I want Mars!
Not helping himself from laughing, Michael answered:
- Yeah, I think they can manage it for us.
Aluna died 3 days after, in the precise moment someone was out there saying:
'That's one small step for man, one giant leap for mankind'…
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