quarta-feira, 7 de maio de 2014

LIBERTAS

40 anos do último motivo para feriado nacional na nação portuguesa... Relativamente recente mas já com tempo suficiente para que os frutos nascidos das flores da Revolução tivessem sido distribuídos segundo as promessas de um Portugal que deixasse de se sentar (palavras do implacavelmente certeiro García Márquez) “roto e remendado à mesa dos poderosos do mundo”.
Não há dúvida de que nos podemos orgulhar de ser herdeiros de uma das mais inspiradoras revoluções da humanidade - em quantas ocasiões o vermelho é de cravos e não de sangue? –, mas se é inegável o valor de algumas das conquistas dos capitães de Abril também o é o facto de que aquilo que conseguiram (conseguimos) ficou muito aquém das promessas que (para alguns, ainda que só nestes dias) os sagraram como heróis.
Se é facto que mais nenhum pai português viu o filho regressar em quatro tábuas do Ultramar, também é certo que muitos outros – à época tão portugueses quanto os de cá – perderam a vida nas inúmeras guerras que sucederam àquela que, note-se, nunca chegaria a ter sido o que foi (e certamente nem seria, de todo) não fosse pela sempre bem-vinda e nunca suficientemente criticada ingerência dos intervenientes externos do costume. Curioso, no mínimo, é que os mesmos que enaltecem com orgulho as grandiosas descobertas e antigas glórias ultramarinas portuguesas sejam aqueles que mais aguerridamente atacam, de peito cheio, o esforço feito para as manter como tal. Nenhuma guerra se justifica por mais justificável que seja, mas de certas figuras exige-se, no mínimo, coerência, e isso, infelizmente, é coisa muito rara por terras de Portugal. Então entre aqueles que (quando convém) demonizam o “império colonial” português e depois (nisso sim há coerência...) se deleitam com (e obrigam o povo a aturar, o que ainda é mais grave!) as visitas da pobreza real britânica às antigas (será?) colónias, a coisa torna-se verdadeiramente insuportável...
É por essas e por outras que não me surpreende que Salazar tenha sido eleito o “maior português de sempre”. O senhor cometeu erros, sem dúvida, mas soube ser coerente: pode ter exigido sacrifícios do povo, mas não viveu no luxo; pode ter tomado decisões erradas mas fê-lo acreditando que era o melhor para o país. Enviou muitos para a morte no Ultramar mas na altura não fez mais do que tentar defender aquilo que ainda hoje é encarado como o “glorioso passado”, um passado que na altura era também um futuro, e um futuro em que muito (talvez demasiado) presente foi investido. Entenda-se que a “guerra” não foi iniciada por Portugal, entenda-se que à época os portugueses não eram só europeus. Recorde-se ainda que Salazar conseguiu manobrar os dois lados do conflito e manter o país fora de uma 2ª Guerra Mundial, e que durante a mesma, pode não ter sido um santo mas, soube proteger Portugal e ainda salvar milhares de judeus perseguidos (aqueles que acham que Aristides de Sousa Mendes, ou qualquer outro, poderia ter feito passar hordas de refugiados sob as barbas de um governo do calibre do Estado Novo que não o aceitasse, façam o favor de ser coerentes, informem-se e desenganem-se!).
Admiramos descobridores, santificamos reis, celebramos os poetas que os cantaram, e agradecemos com desprezo a quem lutou para que as “glórias” não virassem passado!? Dona coerência, onde está?! No mesmo sítio onde fica de cada vez que nos queixamos de falta de segurança enquanto exigimos controlar as forças de autoridade, de tal forma que permitimos que sejam sabotadas ao ponto de não terem meios nem maneira de deter os verdadeiros criminosos. Ou, mais longe, lá onde aqueles que são determinados culpados saem à rua sem mal maior, e os inocentes ou acusados de delitos menores cumprem penas que não lembrariam à PIDE.
Falamos de Liberdade... Concretizemos...
Liberdade de expressão? Sim, é um facto: hoje podemos falar abertamente do que quisermos sem medo que algum bufo esteja por perto e nos leve a passar uma noite na prisão, mas... Será que somos realmente livres de pensar o que quisermos e de agir de acordo com aquilo em que acreditamos? Teremos todos o mesmo direito de reivindicar os nosso direitos de forma que efectivamente faça alguma diferença? Exceptuando o funcionalismo público - que constitui o Estado e é, em última instância, quem manda – será que a Voz do povo pode alterar alguma coisa de realmente significante? Ou continuará o volume da voz a ser definido pelo poder de quem a usa?
Liberdade de imprensa? Será? Ou serão as verdades vendidas por cá hoje, tal como as de antes (e tal como no resto do mundo, refira-se), condicionadas por interesses com poder para tal? Há hoje formas mais dissimuladas e eficazes de controlar palavras, actos e até vontades. O lápis azul foi substituído por meios mais habilidosos e discretos, mas continua a funcionar, se possível, com efeitos mais rápidos e mais abrangentes.
Direito de voto e participação cívica? Sim, mas... e aqui o MAS é enorme... Para quem, e com que sentido? Alguns sentir-se-ão ultrajados pela falta de “participação cívica” da população, mas talvez a vitória clara da abstenção em sucessivas eleições não devesse ser encarada como uma falha do povo mas antes como um claro incumprimento daquilo que são os propósitos teóricos da participação democrática. Será que realmente temos opções de voto? Ou será que só tem interesse em votar quem sabe que conseguirá proveitos pessoais da acção deste ou daquele partido (para não dizer, deste ou daquele “amigo”)? Na verdade, a própria palavra “partido” diz muito daquilo que são as democracias actuais: facções em permanente oposição sem verdadeira preocupação em trabalhar pelo interesse maior da nação, ocupando o seu tempo (aquele que é pseudo dedicado às funções que realmente devem exercer) a criticar quem está no poder, independentemente do quanto se revêm nas suas acções ou ideologias (supondo que ainda existem...) e esquecendo os próprios erros que, na maioria das vezes, são os reais responsáveis pelas situações que criticam com falsa determinação. Mais uma vez, faz falta a Dona coerência... Então quando ex-governantes, acusados de manipular o erário público das formas mais escabrosas de que há conhecimento, voltam à função pública como heróis, os sintomas são já demasiado graves...
E quando alguém tenta ser coerente e cumprir o que promete: “aqui d’El Rei que não admito que a tua coerência mexa na minha vidinha”... Como podemos querer que Abril resulte se quem mais tem não está disposto a abdicar de um bocadinho do muito que “aquiriu” pelo bem do vizinho (toda a vida) injustiçado? Se for pelos afilhados ainda vá, mas pelo vizinho...
Muitos dos que outrora cantaram a revolução estão hoje desiludidos com os seus resultados. Mais direitos exigem mais responsabilidade, mas essa não tem crescido desde 74, aparentemente seguindo o sentido contrário. “Os Vampiros” que tudo comiam, tudo continuam a comer. A diferença é que agora são mais, agem de acordo com a lei e vão deixando algumas migalhas para que o povo não arrisque deixar o pouco que tem pelo nada que é certo e não se lembre de fazer alguma revolução que lhes tire o que a outra lhes deu.
Houve uma maior distribuição de direitos mas (nem todos e) só para alguns. A “terra da fraternidade” de Zeca Afonso nunca chegou a ultrapassar os limites de Grândola e, se existe, é habitada por muito poucos. “O povo é quem mais ordena”, mas o povo já não é aquele que trabalha de sol a sol de enxada ombro, porque a terra já não dá sustento e a enxada já só serve os calos. Chama-se agora de povo – se é que hoje se chama povo a alguma coisa que não seja uma claque da seleção nacional de futebol – a fatos e gravatas que passam os dias a queixar-se dos males do mundo sem procurar soluções. Como testemunhava um “camarada de Abril”: “O que era de menos nesse tempo é agora demais.”
Os ideais continuam a ser belos, pena é que não vão muito além de inspiradoras canções... Diziam os poetas: “É pelo sonho que vamos!” e “O sonho comanda a vida”. Mas, tal como o sonho, o 25 de Abril não pode ser encarado como uma conquista. Em 1974 foi conquistado o sonho da Liberdade, é por ele que seguimos, é ele que nos comanda, mas não basta! Precisamos da realidade, uma que não obrigue a “embalar a trouxa e zarpar” (como sempre, ainda que não como dantes!), uma em que os “filhos da madrugada”, finalmente, encontrem a sua “manhã clara”, uma em que “o povo” seja efectivamente “nobre” e recrie, com as suas mãos, e não com os ecos do passado, uma nação verdadeiramente “valente” e, enfim, “imortal”.