Em Junho de 2021, de passagem por uma das mais movimentadas capitais europeias, cruzei caminho com estes dois raios de luz.
Brincavam alegremente com a bandeira do país que, mesmo amando aquele onde estão, continuam a chamar casa, e para onde desejam regressar assim lhes seja possível.
Enquanto isso, pais, avós, irmãos e amigos manifestavam-se pacificamente, fazendo ouvir, a quem se dignasse prestar atenção, uma verdade desesperante: "o Paquistão está a matar-nos!"
A lista de sofrimentos dos afegãos e seus responsáveis é longa, mas naquele momento a prioridade era o facto de aqueles que deixaram para trás não poderem fugir de uma morte que, em demasiados casos, é certa.
Outras verdades à parte, o Paquistão estava a matar os afegãos por lhes fechar as portas, deixando-os à mercê de quem os quer matar ou, em muitas situações, reconduzindo-os de volta às mãos daqueles, depois de se terem julgado a salvo em território paquistanês.
Um grito que já é igualmente premente às portas da Europa há demasiado tempo, ainda que este ano se tenha, talvez, para os mais distraídos, tornado mais evidente.
Há 5 anos, num campo de concen... num sítio que se convencionou chamar de campo, na Grécia, tive o privilégio de conhecer, entre muitas maravilhas da criação, uma de muitas extremosas e lutadoras mães de família afegãs.
Entre muitos sinais de generosidade partilhados, Mariam pediu-me, como certamente fez com todos aqueles que a ouviram, que fizesse a sua história chegar a tantos quantos me fosse possível.
Contou-me ter sido secretária numa empresa em que trabalhavam homens.
Contou-me que os filhos já estavam em casa há algum tempo, depois de bombas terem destruído algumas escolas na cidade em que viviam, quando começou a receber ameaças telefónicas no trabalho.
Contou-me como não se vergou ao medo até que o perigo se tornou demasiado evidente, ao saber da decapitação de uma amiga, cabeleireira, que, tal como ela, trabalhava com homens.
Contou-me ter sido então que decidiu partir com a família, rumo à prometida segurança além-fronteiras.
Contou-me de como se fez acompanhar pelo seu computador portátil ao longo de todo o caminho, de como o protegeu como pôde, abraçado junto ao peito, por ser ali que guardava todo o seu trabalho, todas as fotos da família, toda uma vida de esforço e memórias.
Contou-me também, de olhos marejados, sobre como o atirou ao chão quando, no meio da noite, se viu entrar num barco para uma travessia sem garantias ao largo da Turquia... De como, então, usou cada segundo daquela viagem para fixar os olhos de cada um dos seus três maravilhosos filhos, durante o máximo de tempo possível, não fosse algum pedaço de mar engoli-los e ser aquela a última vez...
De como estava grata por terem todos chegado em segurança àquela terra e do quanto precisava que os europeus soubessem que nenhum deles estava cá para tirar nada a ninguém. Que se tinham fugido das suas terras e vidas era porque realmente não tinham outra solução. Pediu-me que contasse a sua história, se necessário, caso alguém precisasse de um exemplo concreto daquilo que tantos têm para contar, mas muitos não conseguem expressar...
Quando notícias de famílias polacas a acender luzes verdes em casa, para assinalar pontos seguros para seres humanos a fugir de uma guerra, se tornam, literalmente, numa rara réstia de esperança...
Quando pessoas que o fazem, ou arriscam a vida para salvar outras no mar, se arriscam também a ser condenadas, ou são mesmo encarceradas por fazê-lo...
Não consigo deixar de pensar que estamos de volta ao período que, todos os anos pelo menos, boa parte dos europeus jura não voltar a repetir...
Quando penso que há milhares de Mariams e seus filhos, e seus pais e tios e avós e netos, a morrer de frio e fome às portas de arame farpado que nascem a cada dia Europa fora... Agora na Polónia, na Lituânia e na Estónia de forma mais visível, mas em bairros e casas e pessoas por todo o lado, na realidade...
Desejo que 2022 seja um ano de abertura... de continentes, países, regiões, mentes e corações, que na verdade estão todos interligados e são todos interdependentes.
Que todas as crianças possam alçar as suas bandeiras físicas ou imateriais sem medo de serem quem são... Que todos saibamos ver, e amar, ou pelo menos respeitar, a criança que existe em cada um, com todas as suas possibilidades e fragilidades, dado que infelizmente se tende a não prestar a devida atenção ao que não é menos idoso em forma física...
Que todos possamos reconhecer, ouvir e acarinhar a criança que temos dentro e os seus sonhos, que muitas vezes deixamos ser tão distantes daquilo em que nos tornamos, tantas vezes conduzindo-nos a versões de nós mesmos que não nos orgulham agora, tal como não orgulhariam quando, regra geral, cada um se permitia olhar sem preconceitos e sonhar sem limites.
Também os sonhos estão interligados, e há demasiados que dependem dos nossos para terem a possibilidade de se concretizar...
Que não haja sonhos limitados à partida pela pequenez dos nossos olhares, e que a indiferença, a mais mortífera das doenças que continua a assolar a humanidade, geração atrás de geração, seja de uma vez exterminada...
Gratidão a todas as vidas que a cada dia nos mostram que não há limites ou fronteiras...
Para mais histórias inspiradoras na Europa, l'Hospice général: https://youtu.be/6Y3F9_9kX68
Para mais histórias inspiradoras no Afeganistão, "A ganha-pão": https://youtu.be/DuUQvtgRGPM
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