Independentemente de tudo, é necessário que a esperança permaneça… Mas disfarçar a realidade com pozinhos mágicos e unicórnios, não só não é verdade como também é injusto… Não, não vai tudo ficar bem, pelo menos não para já, certamente.... Tal não é verdade na generalidade das situações, menos ainda nesta. Não vamos todos ficar bem, se tivermos em conta que "todos" engloba toda a gente. Não é verdade quando há tantas perdas irreparáveis a cada dia. Não é verdade especialmente quando tantas pessoas morrem sozinhas. Não é verdade quando tantos vivem abandonados à sua sorte, especialmente se agora vivem ainda mais sozinhos do que já viviam antes, a sentir-se ou realmente mais ameaçados que antes. Não é verdade quando mesmo aqueles que não viviam sozinhos até agora começam a sentir-se sós. E muito mais se poderia dizer, sobre outras questões igualmente importantes, mas fiquemos por aqui… Que a saúde é o essencial, mas o pão de cada dia é essencial para que a saúde exista e nem todos temos a garantia dele se ficarmos em casa… e nem todos podem ficar em casa… e nem todos temos sequer uma casa onde ficar… Isto passará, sim, mas nem tudo ficará bem... já...
"Se não soubermos viver juntos, morreremos sozinhos..."Não, não vamos todos ficar bem, mas talvez possamos todos ficar melhor. Talvez, se todos soubermos olhar em volta e ver, além do medo, as possibilidades de cada um, e as fragilidades de cada um, e aprendermos, na nossa fragilidade, a usar as nossas possibilidades para aumentar as do outro. Talvez possamos ajudar-nos a minorar as feridas abertas que sempre ficam em muitos e agora são mais evidentes em mais e mais perto, a melhorar o tempo que nos resta juntos neste mundo. Talvez possamos perceber que estar junto não é estar ao molho, e estar separado não é não se ver. Talvez possamos sair disto - porque vamos, enquanto raça, que é só uma, sair disto - mais humanos.
Pode ser que aprendamos a Ser mais. Que olhemos, finalmente, para dentro e percebamos que o mundo todo cabe lá, e que nós somos parte de "tudo" e "tudo" é parte de nós. Que aprendamos, definitivamente, a respeitar aquilo que somos e reconhecer os espelhos, de outras formas, que encontramos no caminho. Que saibamos honrar a velhice com carinho e protecção, abraçar a idade adulta com entusiasmo e entreajuda, e acolher a infância com responsabilidade e maravilhamento. Que todas as idades se misturem porque nenhum ser humano o é menos em nenhum momento da sua peregrinação. Que todas as barreiras se diluam porque a liberdade é preciosa para todos e as fronteiras igualmente injustas, seja qual for a latitude. Que todas as cores sejam realmente fundidas num arco-íris, porque nenhuma é menos importante e nenhuma é mais valiosa.
Para que o arco-íris o deixe de ser basta que perca uma cor... E para que exista cor, há que haver sol, mas também chuva. Ignorar um deles é impedir que a vida floresça, no seu ritmo natural, e a natureza tem tanto a ensinar...
Em cada crise há uma oportunidade, mas é essencial, para que a oportunidade se concretize, que, antes de mais, aprendamos, não a esconder ou assustar com medo, mas a ensinar com Amor, que, para o bem e para o mal, exige que se seja sempre verdadeiro: não, não vamos ficar todos bem, pelo menos para já, mas podemos todos ficar melhor, se todos soubermos agir com honestidade, que exige respeito, que desemboca, necessariamente, em Amor. E vamos ficar ainda melhor do que antes se finalmente esse passar a ser o nosso único fio condutor.
Por muito que precisemos, às vezes, do conforto de um "vai ficar tudo bem", talvez seja mais verdadeira e reconfortante a garantia de que não ficaremos completamente abandonados perante a certeza de que muita coisa não vai correr tão bem quanto desejamos.
Saibamos deixar-nos tranquilizar pela convicção de que faremos o nosso melhor. Aparte isso, viver, certos de que, mesmo que à nossa volta o mundo pareça voltar ao que definimos como normal, o nosso normal é o muito mal da grande maioria da população mundial, que muito continuará a não estar bem, e que, ainda que não possamos mudar o mundo de acordo com a nossa definição do que é bom ou não – até porque é isso mesmo que cria muito do que não está bem - a responsabilidade de criar as melhores condições para TODOS, continua a ser de TODOS. E, talvez, em breve, possamos acreditar que não precisamos que tudo fique bem, porque não há finais felizes, mas sim viagens que valem muito a pena, se vividas com Amor, que exige esta noção de que "ninguém é alguém sozinho...," na certeza que cada um é alguém valioso, por si só.
Esta foi uma Quaresma, para muitos – não todos, porque tomar a parte pelo todo é errado e injusto – vivida em Quarentena, e uma Páscoa, para alguns – os mais privilegiados, não todos, porque tomar a parte pelo todo é errado e injusto – vivida quase exclusivamente em casa. Uma oportunidade para uma reflexão interior, como toda a boa reflexão deve ser, com o mínimo de demonstração exterior, como foi a Páscoa do próprio Jesus, exemplo para quem n'Ele acredita (e não só). É por excelência uma altura de acreditar em impossíveis, de olhar os sinais do mundo como milagres, como momentos de crescimento. Falamos de ressurreição, de renascer, de uma vida que não acaba aqui, em que tudo pode ficar bem…
Trata-se de fé, aquela que se traduz em gestos, e que, mesmo com esperança de que tudo é possível, tem o poder de nos deixar alerta e conscientes do muito que ainda nos falta fazer enquanto humanidade para que tudo fique, de facto, e para todos, bem…
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