02.04.2024. Resultado: filoide maligno.
Ninguém espera um resultado destes, mas para mim não foi uma surpresa:
depois de tanto sofrimento guardado, de tanta lágrima sufocada, tanto grito abafado durante tanto tempo e de uma forma muito violenta nos meses que tinham antecedido o resultado;
depois de um ano de perdas, culminando com a mais dolorosa até hoje, e de vários meses de sofrimento a sós, no meio mais hostil e menos empático que já conheci;
depois de ter tido um susto no anterior e não ter mudado aquilo que sei que precisava de ser mudado na minha vida, aquele resultado fazia perfeito sentido.
Era como se todas as minhas dores, arrependimentos e silêncios se tivessem juntado num ponto do meu corpo e alimentado uma alteração genética que deu origem a um tipo de anomalia que, sendo minha, só podia ser raríssima e super organizada.😉
Houve momentos de muita coisa… Não é que alguma vez o tenha tido, mas quando perdes total controlo daquilo que te acontece, quando a tua vida está, em absoluto, nas mãos de outros e das suas decisões, é-se forçado a aprender umas coisas….
Mas deixar-se guiar totalmente nunca foi uma possibilidade para mim (nem a dançar, quanto mais…), para bem e para mal... Neste caso, porém, o facto de não me acomodar acabou por ser, na verdade, uma bênção.
Quando me disseram que era urgente e o primeiro exame foi marcado para dali a dois meses, desesperei…. Mais ainda porque via o bendito a crescer a cada dia. Se era urgente e se estava a crescer, porque não estava nada a ser feito? Perguntei, com respeito, sempre. E valeu: a data que era para o primeiro exame acabou por ser para a primeira cirurgia.
Não queria passar à frente de ninguém em situação mais urgente, mas também não podia deixar que o meu caso ficasse esquecido, à espera de piorar, talvez apenas por não dizer o que se estava a passar comigo.
O processo era deles, mas o corpo é meu.
E ouviram-me. E voltaram a ouvir-me quando, meses mais tarde, me disseram, sem explicar nada (porque greve de médicos…) que ia ter que fazer rádio e quimioterapia. Eu, a quem tinha sido dito que podia não ter que fazer nada e a quem acabavam de dizer que já estava livre do mal depois da primeira cirurgia. Eu que já tinha feito uma segunda.
Não questionei a decisão, mas pedi que me explicassem porquê. E o meu pedido podia não ter resultado em nada, mas acabou por levar o processo para as mãos de quem realmente estuda e trata a raridade e sabe que não há dados que comprovem o efeito de uma terapia com danos colaterais tão graves neste tipo de problema.
Fiz mês e meio de rádio, todos os dias, sem me queixar (muito), e acabariam por decidir não me sujeitar aos efeitos nefastos da quimioterapia sem um propósito claro. Terminei no dia 24 de Dezembro: um belo presente de Natal! 😊
A grande lição de tudo isto: fala! Confia, mas não deixes de
falar! Partilha, com quem se ocupa da tua saúde, os teus medos, as tuas
inseguranças, as tuas dúvidas. Pergunta. Não duvides, mas questiona. É o teu
corpo, a tua vida. Por muito que os profissionais de saúde queiram, não podem
dedicar a cada um dos doentes o cuidado que só cada um pode ter consigo
próprio.
E acima de tudo: não abafes dores, angústias, mágoas e
lágrimas.... Tantas lágrimas engoli para não preocupar, para não incomodar,
para não deixar alguém triste.... Abraça o que sentes, honra o que sentes. Os teus
sentimentos são tão importantes e válidos como os de qualquer outra pessoa. Não
os escondas, não os sufoques. Mais cedo ou mais tarde, essas dores encerradas em
ti acabam por manifestar-se, muitas vezes em forma de doença.
Não faças como eu, não deixes chegar a esse ponto. Procura
ajuda, aceita ajuda, está abert@ a sentir e a dar a saber o que sentes também.
Ninguém aprenderá dos erros que cometeram contigo se não lhes fizeres saber o
quanto te magoaram. Dá essa oportunidade de crescimento também. Se a usam ou
não, não é responsabilidade tua, mas não negues essa oportunidade. E, acima de
tudo, não negues a ti próprio o direito de sentir e expressar o que sentes.
É essencial, é a tua verdade, e pode poupar-te muitas mais dores.
Neste caso, e como em tantos outros, não fiz questão de
esconder, nem fiz questão de contar.
Se sentes que deverias ter sabido por mim e soubeste por
outra pessoa ou só estás a saber agora, não é porque não confie em ti, é porque
simplesmente não fez sentido dizer-te quando nos encontrámos ou não houve
espaço e tempo para contar.
Se achas que isto é informação a mais e que não precisavas
de saber disto: não te pedi que lesses. Salvo raras excepções, não escrevo para
ser lida, escrevo porque preciso de escrever, e se alguns textos acabam
publicados é porque por algum motivo acho que podem fazer sentido para e/ou
ajudar outras pessoas. Este é um desses.
2023 foi o ano do terramoto, de muitas perdas irreparáveis
(outras nem tanto) que abanaram a minha realidade de forma violenta. Seguiu-se
um tsunami, que me deixou debaixo de água durante quase todo o ano de 2024. Foi
um ano de cura, de parar finalmente, de repensar muitas coisas e priorizar-me.
Terminou também com fogo, literal, a reduzir demasiado a cinzas. 2025 está
fadado a ser o ano do renascimento, de ser fénix que se reergue da destruição.
Assim seja.
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