"Humor heightens our sense of survival,
and preserves our sanity" (Charlie Chaplin)
...o que não significa que quem muito sorri ou muito faz sorrir não tenha razões para chorar ou não o faça, apenas quer dizer que quem o faz optou por usar os melhores meios ao seu dispor para fazer magia, transformando quedas em oportunidades, chuva em arco-íris, lágrimas em sal...
Num momento ou outro da vida, todos somos actores, todos usamos da nossa mais insuspeitada criatividade e força anímica para esconder esta ou aquela mágoa, para retocar a cores esta ou aquela dor. Mas há quem o faça a tempo inteiro e basta estar atento para perceber que quem mais precisa de ajuda é, muitas vezes, quem mais pronto está a ajudar...
É uma concepção fundamentalmente errada aquela que leva ao choque perante a desistência/o sucumbir de alguém que re(in)spira alegria. Alegria não é sinónimo de ausência de sofrimento, mas é oposto de baixar os braços face às tormentas. Não está constantemente alegre aquele que só tem razões para estar feliz, é-o quem faz por encontrá-las e as valoriza.
Notícias como a que dá conta da passagem de alguém que muitas marcas deixa no mundo, inspirando vidas e libertando gargalhadas, carregam com elas o peso que qualquer perda humana acarreta acrescentadas de uma carga extra: a da surpresa face à luta perdida de um rosto feliz, contra os seus fantasmas, as tristezas, os medos e as dores, que não deixam de existir por muito que a forma de encarar a realidade os tente contrariar indiciando o contrário.
De todas as criaturas maravilhosas que tive o privilégio de ter no meu caminho, nenhuma me ensinou mais do que aquelas que mais sofreram, que mais provações passaram, e que lhes souberam resistir com a força, com a esperança, com o olhar positivo sobre o mundo – por muito enublado por cortinas de lágrimas e enegrecido por sombras escondidas que fosse –, e, acima de tudo, com um sorriso nos lábios e uma vontade enorme de ser feliz fazendo outros felizes. Uma generosidade comum entre aqueles que fazem da alegria uma prática quotidiana, e que só quem muito aguentou consegue construir e manter ao longo de uma vida. E porquê? Porque conhece e trata por tu o verdadeiro sofrimento e prefere concentrar-se naquilo que são as pequenas grandes alegrias da vida enquanto tem oportunidade de as viver.
Perante as dificuldades há sempre uma escolha a fazer-se. A maioria de nós opta pelo caminho menos exigente: o da resignação, da auto-comiseração, da perda de confiança, que levam a uma espiral de desespero e dor de que é verdadeiramente difícil sair. A quem o faz não há dedos a apontar... É próprio da condição humana sentir-se perdido perante os desafios de um mundo que não se foi criado para compreender. No entanto, e tendo em conta os exemplos daqueles que conseguem suportá-los, e mesmo agir de forma a transformar buracos em degraus, é tão claro quanto necessário perceber que se pode seguir por outro caminho, um que pode não conduzir inevitavelmente a um “final feliz”, mas que poderá, sem dúvida, tornar a caminhada, a nossa e a dos que nos acompanham, muito mais agradável.
E aí temos os exemplos de gente que vive a fazer os outros rir (e não me refiro apenas a comediantes, há tanto bom “humorista” por aí escondido a desempenhar papéis muito menos glamourosos mas igualmente mágicos e transformadores!). Esses que enfrentam as dificuldades com um sorriso e afastam os medos à gargalhada! Que usam a alegria como escudo e a perspicácia como arma. Esses que são de carne e osso mas que à conta de umas quantas doses de energia e boa-disposição nos fazem esquecer que são apenas e só humanos, com tantas preocupações quanto o comum mortal, ou (provavelmente) bastantes mais... Porque quem mais luta é quem mais razões encontra para combater, sejam quais forem as armas que escolha.
Há umas quantas figuras que enquadro nesta pintura, mas há duas que se destacam no plano dos globalmente imortalizados. Um, o incontornável (e meu all time favourite) Charlie Chaplin. Charles, de seu nome, viveu toda uma infância de negrume em vários sentidos, mas soube transformar o cinzento do passado num preto e branco que a muitos ensinou a sorrir.
Roberto Benigni, internacionalizado pelo personagem que é “o lado belo da vida” por excelência, ao receber o Óscar pelo filme que é um hino à capacidade humana de lidar com a adversidade, agradeceu (entre muitos outros, e num discurso que ainda é recordado pela espirituosidade) aos pais que lhe deram “a maior dádiva de todas: a pobreza!”
A boa disposição não é uma circunstância, é uma opção; é a escolha que se faz a cada momento, quando perante a realidade se decide focar a atenção no melhor de cada situação e não se deixar acabrunhar pelas sombras que inevitavelmente resultam de cada raio de sol.
No outro dia alguém me perguntava: “Mais tu est toujours contente?” Respondi: “Eu tento....” =)
É que isto da alegria tem muito que se lhe diga, não é só “rise and shine”! Trata-se de uma prática que exige muita auto-disciplina: estar atento aos pormenores, manter presentes as graças recebidas, evitar os pensamentos destrutivos, esquecer os impossíveis... Há na verdade toda uma ciência que poderia desenvolver-se em torno da questão, mas a maneira mais simples de o fazer é só uma: viver o presente, porque, como muito bem o dizia alguém, “viver no passado causa depressão e viver no futuro traz ansiedade”... Então...
Carpe Diem
“O Captain my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weathered every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung for you the bugle trills,
For you bouquets and ribboned wreaths for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchored safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.”
(Walt Whitman)


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