“Deixaram-me aqui sozinha… Foram-se todos embora e deixaram-me aqui sozinha…”É doloroso…é demasiado doloroso perceber que ainda há tantos “sozinhos” neste país, ou em qualquer outro mas neste em particular… Sozinhos e abandonados à sua sorte, nas horas de catástrofe como em todas as outras horas em tantas outras circunstâncias. Habituados a desenvencilhar-se sozinhos, a contar só consigo próprios e com aqueles que conhecem e que, para bem ou para mal, são a sua comunidade, a sua família alargada. Todos são “tios” e “tias” numa aldeia, todos sabem quem é o “filho de fulano” ou o “tio de sicrano”. Ali, mesmo sozinho, ninguém está só, porque os mais velhos cuidam dos mais novos e, mesmo quando os mais novos não o podem fazer, há sempre alguém que cuida daqueles que já passaram por demasiado para poderem ainda cuidar de si mesmos. E mesmo que muito tenha mudado ao longo dos anos, todos continuam a saber do nascimento dos filhos ou netos uns dos outros, todos os viram crescer juntos, ir juntos à escola pela primeira vez; todos se visitaram ou deram o apoio possível quando alguém ficou doente ou sofreu algum drama familiar; alguém cuidou daquele que por algum motivo ficou isolado. Ali criaram o seu próprio mundo, o único que, em muitos casos, lhes foi possível conhecer, ali depositaram sonhos e investiram os rendimentos escassos de muitos anos de trabalho duro, diário, constante, não reconhecido e/ou desvalorizado. Todos fizeram “jeitos” e trocaram favores ou sacos de batatas ou do que a terra mais der nos anos em que as colheitas voltam a ser generosas e ainda conseguem compensar um bocadinho da luta diária que ela exige, tantas vezes sem retorno. Dali viram partir os jovens que, sem perspectivas de futuro ou oportunidades de presente, se viram obrigados a procurar outros mundos. Mundos que os reconheçam como iguais e lhes dêem as oportunidades que a maioria dos da sua idade, os privilegiados que nasceram nas cidades e/ou à beira mar, têm de mão beijada, sem conhecer uma pequena parte dos desafios ou dificuldades de alguém que não pode contar com os benefícios encarados como naturais para qualquer cidadão de um país dito “democrático”. Esses fugiram - para longe, porque fugir para perto tem tantas vezes tantos custos que não compensa os benefícios que se conseguem “lá fora” - mas ainda assim voltam, sempre que possível, para encontrar os seus na terra que, aconteça o que acontecer, será sempre a sua, com tudo o que tem de melhor e pior… Enquanto a deixarem existir…
“Eu não tenho mais nada no mundo e vou-me embora daqui?”Para evitar que o número de perdas humanas continue a crescer, as autoridades previnem (como sempre, não as causas mas sim as consequências), obrigando à evacuação das aldeias em possível rota de fogo. A medida não é criticável – teria sido, aliás, dadas as circunstâncias não evitáveis (?), mais que necessária para evitar o que nunca devia ter acontecido num “país do século XXI” – mas também não o é a relutância de quem tem ali a sua casa, com todos os sentidos que a palavra possa ter, e que sabe que, se não for pelo seu próprio esforço, provavelmente ao voltar, se voltar, não encontrará mais do que cinzas. Pessoas humildes, de recursos parcos e hábitos simples, não pedem sequer as mesmas oportunidades que os outros, pedem apenas o direito a que não lhes seja roubado o pouco que conquistaram e que ainda dá algum sentido à sua vida, representando-a de tantas formas. No mesmo sentido, e ainda que a questão do ordenamento do território inclua muitos pontos em que a discussão e (principalmente) as acções sejam necessárias, há também que ter em conta que a proliferação das espécies (finalmente) consideradas desadequadas e perigosas não é senão uma consequência directa das dificuldades extremas a que foram votados os pequenos agricultores pelas exigências de uma política agrícola europeia devastadora, representando para muitos a única fonte de rendimento contante e, portanto, de subsistência. Uma subsistência a que a constituição a todos dá direito mas a que a realidade não garante as mesmas chances. Uma subsistência que implica também muitos custos não adequados aos rendimentos que representam.
“Vou sair p’ra onde? Se a gente há-de morrer noutro lado, morre aqui.”
“Pedreiros levam dinheiro, eu não tenho. Tenho que resolver o problema eu, pois.”
“…aqueles de quem ninguém fala…” “…os que não têm voz…”As principais causas desta calamidade não foram o calor nem a trovoada, nem mesmo as características da floresta ou do território, sem dúvida factores propiciadores das circunstâncias que se vieram a verificar. Nem sequer a “mão criminosa” – que preferimos acreditar não estar envolvida nesta situação mas certamente o está em muitas outras, com punições mínimas (quando as há) mas só para os que (tantas vezes cobardemente recrutados pelas suas fragilidades psíquicas e/ou emocionais) emprestam as mãos às causas de algumas poucas cabeças, que ninguém parece saber de quem são, que acabam sempre incólumes.
A principal causa desta desgraça foi o isolamento, esse que afecta uma, cada vez mais, minoria da população portuguesa, com os mesmos direitos constitucionais, civis e humanos de todos os outros, mas para quem os deveres são iguais ou maiores e os recursos e oportunidades inferiores, muito inferiores às de outras populações dentro do mesmo país. Mesmo em situações extremas, votados ao esquecimento… Um esquecimento que como todo o esquecimento é silencioso mas que nem por isso, ou até talvez mais por isso, não deixa de ser injusto, impiedoso e assassino.
Para as vítimas… falham as palavras porque face a tal realidade nenhuma palavra tem significado… abundam os sentimentos… Sinto muito…sinto mesmo muito…com e por cada um daqueles a quem a vida foi roubada de tantas maneiras… Verdadeiros heróis da resiliência – aquela de que tantos falam mas não fazem ideia do que quer dizer porque nunca a viveram -, porque o foram a vida toda, não só agora, quando as razões para vos reconhecerem como tal são (infelizmente) tão evidentes que é impossível continuar a ignorar. Lutaram pelas qualidades da vida como sempre a conheceram, resistiram às dificuldades tantas vezes criando mais dificuldades ainda, e quando a escuridão se abateu continuaram a lutar, ainda que deixados à vossa sorte, cada um por si e uns pelos outros…como sempre… Nenhuma palavra, seja de quem for, fará jus às lições que tantas estórias, dentro de uma história que agora fica (infelizmente) na História maior, têm para ensinar. Nodeirinho, Pobrais, Sarzedas de S. Pedro, Várzeas, Vila Facaia… e tantas outras cujos nomes se vão ouvindo pela primeira vez em momentos de tragédia eminente ou efectiva… (Porquê? Porquê só assim?) Que a vossa dor possa encontrar alívio, que a vossa esperança nunca se perca, que as vossas forças sejam restituídas. Que aquilo que nós, humanos, possamos fazer nesse sentido seja feito (e os portugueses têm tendência a ser bons nisso, há que prová-lo mais uma vez). Que naquilo em que não pudermos ajudar o universo de alguma forma vos compense…
Aos bombeiros voluntários, procurem naqueles por quem arriscam a vida a coragem para continuar a missão. Inspirem-se nesta gente tão mas tão forte nas suas fragilidades, e que põe em vocês a esperança para os momentos em que essas forças não são suficientes para fazer face às dificuldades, confiando-vos a vida. Exijam a concertação de esforços a quem deve ser também responsável pelas vossas vidas, de valor acrescentado pela responsabilidade que encarnam. Exijam a (in) formação necessária para levarem a cabo as acções que podem significar a vida daqueles a quem agradecemos por se arriscarem proteger, bem como as vossas e dos vossos companheiros de luta.
Aos meios de comunicação, façam por favor o trabalho mais útil que vos for possível. Em lugar de repetir indefinidamente as mesmas imagens de destruição que tantas vezes exploram o sofrimento daqueles que já têm muito mais do que deviam na conta, procurem servi-los, oferecendo àqueles para quem a televisão é neste momento o único contacto com o resto do mundo as informações de que realmente precisam; e aos que querem ajudar, mas não sabem como, aquelas que podem elucida-los sobre como fazer a diferença. Dêem a quem precisa a voz que alguns de vós já reconheceram não lhes dar, façam as perguntas para as quais respostas precisam de ser encontradas e em relação às quais medidas urgem ser tomadas.
Às autoridades a quem é confiada a protecção e garantia do bem-estar de TODOS os cidadãos nacionais (e estrangeiros) no território que se propuseram servir, usem por favor as competências que alguém em vós reconheceu e os meios que TODOS colocamos ao vosso dispor para que TODOS possam beneficiar da mesma forma do cuidado que nos é devido. Há meios, há pessoas com qualidades e vontade, há que saber usá-los e não desperdiça-los em esquemas obscuros e acções inúteis unicamente destinadas ao lucro de alguém que provavelmente será preferível não se saber quem é…
Se, por outro lado, a intenção é que as aldeias deixem de existir, então há formas (certamente mais custosas mas) menos dolorosas de o fazer. Podemos sempre acampar todos nas praias…mas talvez não seja boa ideia, campos de refugiados em ilhas também ardem… Provavelmente poem-nos num prédio de habitação social… mas esses até em “países superiores” são reduzidos a nada da mesma forma… Talvez a única solução seja mesmo distribuir a riqueza de forma justa. Talvez tenham mesmo de garantir (por uma vez) a toda a gente as mesmas condições e oportunidades que reservam para vós mesmos. Haja justiça e bom senso, é tudo quanto vos pedimos, para TODOS.
Porque das cinzas ainda é possível renascer-se, do esquecimento, infelizmente, não…

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